sábado, novembro 04, 2006

A Doutrina da Regeneração

A Doutrina da Regeneração

por

Gordon Lyons


Sumário da Regeneração

Antes de considerar a doutrina da regeneração em mais detalhe, nós primeiro sumarizaremos os elementos principais desta doutrina:

1. Regeneração é um ato completamente de Deus, e uma demonstração de Sua onipotência. É o mesmo tipo de onipotência que Deus exerceu quando, por Sua palavra de comando, Ele criou o universo; ou quando, por uma semelhante palavra de comando, o Senhor ressuscitou os mortos. Se é requerido um poder onipotente para criar o universo ou ressuscitar os mortos, assim, é requerido o mesmo poder onipotente para ressuscitar aqueles que estão espiritualmente mortos. É este poder divino e onipotente que Deus exerce na regeneração quando por Seu Espírito Santo Ele ressuscita um pecador da morte espiritual, fazendo-o uma nova criação (João 5:25; 2 Coríntios 5:17; Efésios 1:19-20)

2. Pela Pessoa e agência do Espírito Santo, Deus regenera ou dá o novo nascimento à alma (espiritualmente morta). Este novo nascimento é operado no pecador pela obra onipotente do Espírito de santidade. Este é um ato divino e onipotente; portanto, segue-se que o próprio pecador não pode fazer absolutamente nada para assistir em sua produção. A regeneração da alma é exclusivamente a obra de Deus. Ela não é de forma alguma atribuível ao desejo ou esforço do seres humanos caídos, pecadores e espiritualmente mortos (João 3:5-8; Efésios 2:8-10; Colossenses 2:13)

3. Regeneração não é uma mudança de mente ou propósito engendrada pelo próprio pecador. Não é uma determinação da parte do pecador para escolher Deus ou a santidade, antes do que os prazeres do pecado. A humanidade caída e não-regenerada está espiritualmente morta. Aqueles que são espiritualmente mortos não podem ter nenhum desejo pelas coisas do Espírito, ou por Deus. Sua alma deve primeiro ser feita viva. Regenerar é fazer viver para Deus, ou ser despertado da morte espiritual para a nova vida espiritual (Efésios 2:1-6; 4:18-19; Tito 3:3-7).

4. Regeneração é a criação de um novo coração ou de uma nova vida interior. Esta mudança ou conversão interior deve vir de fora da própria pessoa, e do Deus do alto. Em outras palavras, uma pessoa deve nascer de novo nascer do alto para receber uma nova natureza espiritual e ter novos desejos santos criados dentro do seu coração ou mente. Aqueles que são assim nascidos do alto são ditos serem nascidos de Deus; isto é, eles nasceram espiritualmente para o reino e família de Deus. O reino de Deus compreende todos os membros da Igreja verdadeira ou invisível (João 1:12-13; Romanos 8:14-17; 1 João 3:9-10).

5. A não ser que uma pessoa seja nascida do alto (regenerada), ela permanece em absolutas trevas para as verdades espirituais. Ele não pode entendê-las porque estas verdades requerem discernimento espiritual; isto é, elas requerem a presença do Espírito Santo para iluminar a mente e o entendimento. É o poder da Palavra e do Espírito que capacita uma pessoa a ver a verdade e a se arrepender do seu pecado. Por este mesmo testemunho poderoso à verdade, o pecador é levado a crer no Filho de Deus, e a seguir a santidade de vida (1 Coríntios 1:18-25; 2:12-15; 2 Coríntios 4:3-6)



Nomes Diferentes para Regeneração

A Bíblia alude à, ou descreve, a regeneração com diferentes nomes ou termos incluindo os seguintes:

1. O novo nascimento
João 1:13; 3:3,6-7
1 Pedro 1:3,23
1 João 3:9; 5:1,18
2. Uma ressurreição (espiritual), ou novidade de vida
Romanos 6:4-13

Efésios 2:4-6
Colossenses 2:12-13; 3:1-3
3. Uma nova criação
2 Coríntios 5:17
Gálatas. 6:15
4. Um novo coração (ou mente)
Jeremias 24:7; 31:33; 32:38-39
Ezequiel 11:19-20; 36:25-27
Hebreus 10:16

A Necessidade de Regeneração

Assim como o nascimento natural resulta em entrar num reino natural e temporal (o reino deste mundo), assim o nascimento espiritual resulta em entrar no reino espiritual e eterno (o reino de Deus e o mundo ou era vindoura). Não podemos experimentar o mundo físico sem ter nascido nele fisicamente. Similarmente, não podemos experimentar o mundo espiritual sem ter nascido nele espiritualmente. A não ser que uma pessoa nasça de novo nascida espiritualmente do alto ela não pode ver o reino de Deus (João 3:3,5,7).


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 24 de Junho de 2005.


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Certitudo Salutis: A Certeza da Salvação

Certitudo Salutis: A Certeza da Salvação

por

Oslei Nascimento

1. Definições e comentários introdutórios.

Por mais incrível que possa parecer, trabalhar sobre o tema certeza da salvação não é uma tarefa das mais fáceis! Quando o Dr. Augustus Nicodemus Lopes [1] palestrou e escreveu sobre a certeza da salvação a partir do conceito puritano, alertou seus ouvintes e leitores acerca do aspecto estritamente doutrinário do assunto e pediu a maior atenção possível, buscando obter atenção dobrada. Entendemos que, para ele, dissertar sobre essa segurança seria um trabalho delicado, ainda mais dentro do conceito puritano. A dificuldade surge da variedade de interpretações que este tema recebe das teologias: católica e reformada, com seus argumentos fundamentados em textos bíblicos que os comprovam. Assim, se já é difícil compreender a certeza da salvação plenamente, quanto mais defini-la!

Nem todos os autores e estudiosos preocupam-se em definir certeza da salvação. Alguns comentam, explicam, avaliam e comparam, mas não definem - como Pearlman e Chafer, por exemplo. É claro que outros, não apenas fazem o mesmo, mas também definem: a Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã define a certeza da salvação como “a confiança do crente em Cristo de que ele, a despeito da sua condição pecaminosa mortal, é, de forma irrevogável, um filho de Deus e um herdeiro do céu” [2], afirmando que esta convicção pode ser experimentada por todo cristão, haja visto que, o próprio Deus lhe dá esta certeza.

Já Murray, por sua vez, a define assim: “Quando falamos de certeza da fé nos referimos à certeza nutrida por um crente que está em estado de graça e salvação, o conhecimento que ele tem de que está salvo, passou da morte para a vida e tornou-se possuidor da vida eterna e de uma herança na glória”. [3] Geoffrey define-a de maneira muito simples e agradável. A segurança da salvação é aquela que o crente possui e lhe dá a certeza de que é um crente e que o capacita a dizer “eu sei que meus pecados estão perdoados; eu sei que vou para o céu; eu sei porque...”, e dá as razões. [4]

2. A certeza da salvação e o ato primário da fé.

Em seu Dicionário de Teologia, o assembleiano Andrade [5] colocou a frase em latim “Certitudo et gratiae praesentis et salutis aeternae” que significa a certeza da graça presente e da salvação eterna. E concluiu, destacando que a segurança da salvação deriva da justificação pela fé. Apresenta uma discordância, neste ponto, do conceito puritano, já que os reformadores, especialmente Lutero, associavam a certeza da salvação diretamente à justificação; enquanto que os puritanos, sob a influência de Theodore Beza, criam a certeza da salvação estar ligada à santificação. Ser salvo pela graça (o que está realmente ligado à justificação), não é a mesma coisa que ter certeza da salvação (derivada da santificação).

A maioria dos autores que cito, afirmam que há uma óbvia distinção entre a certeza da salvação e aquilo que é chamado ato primário da fé. O primário e direto ato da fé não é a crença de que somos salvos e somos herdeiros da glória eterna, mas sim, um ato de confiança a Cristo, graciosamente oferecido a nós no evangelho, no qual podemos ser salvos. O primeiro ato de salvação é crer em Cristo para a salvação, a certeza da fé é a convicção de que a salvação é nossa. Desde que a certeza da salvação ou segurança da fé é logicamente conseqüência ou reflexo do reconhecimento de Jesus Cristo como Salvador e Senhor, então não pode ser a essência deste primeiro ato de fé (esta certeza é chamada, portanto, de ato reflexo da fé).

Assim, sobre o sentido mais específico desta fé salvadora, Louis Berkhof, explica: “Há certas doutrinas concernentes a Cristo e Sua obra, e certas promessas feitas nele aos pecadores, que o crente aceita confiadamente e que o induzem a depositar em Cristo a sua confiança. Em resumo, o objeto da fé salvadora é Jesus Cristo e a promessa de salvação nEle”. [6]

Berkhof, também afirma que o ato especial da fé salvadora consiste em receber Cristo e repousa nele como ele é apresentado no evangelho, conforme Jo 3:16-18: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Por quanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Almeida, RA).

Mas isto não significa, entretanto, que este primário ato, de receber Jesus pela fé, deva ser entendido como sempre separado cronologicamente da certeza da salvação. É possível uma pessoa ser absolutamente salva sem saber ou ter certeza disso – mas ser salva! Por outro lado, esta convicção pode ser introduzida no ato da fé salvadora e ser instantaneamente registrada na consciência do crente.

Então, entende-se que uma pessoa pode receber Cristo através da fé salvadora e imediatamente ter impressa em sua consciência a certeza da salvação; outra pode também receber Cristo pela fé salvadora e levar algum tempo até que adquira a certeza da salvação e outra, ainda, pode ser sinceramente convertida a Cristo, mas não ter a certeza de que é salva – às vezes, até por não saber disso!

3. A certeza da salvação e a Confissão de Fé de Westminster.

É Geoffrey [7] quem afirma, portanto, categoricamente, que a segurança da salvação não é essencial para a fé salvadora. Conforme sua explicação, a pessoa pode ser uma cristã e não ter certeza, pode estar realmente salva, mas ter dúvidas. São descritas como crentes sinceros que sentem falta de segurança, duvidam da sua própria salvação. Refletem em seu caráter e personalidade a mansidão que o Senhor Jesus ordenou que aprendêssemos com ele e, demonstram a ação da graça em suas vidas, mas não têm qualquer convicção de serem salvos; embora tenham a certeza de que são crentes. Dessa forma, afirma que a segurança de salvação não é um fator primordial para que a fé salvadora esteja presente.

Robert Shaw concorda com Geoffrey em sua obra “The Reformed Faith” – ao explicar que a Confissão de Fé de Westminster sustenta estes argumentos quanto a certeza da salvação durante ou imediatamente após, ou não, da conversão a Cristo. Conforme este autor, tem sido ensinado por alguns, que qualquer um que crê em Cristo deve estar imediatamente consciente e convicto de sua salvação e que esta conscientização é a primeira evidência de que alguém esteja justificado.

Curiosamente, a Confissão de Fé faz completo silêncio quanto a veracidade desta evidência, informa Shaw. Ou ainda, ela claramente indica que esta conscientização é, de alguma forma, absolutamente inseparável da fé verdadeira. Esta conscientização, que podemos chamar, como já mencionamos anteriormente, de ato reflexo da fé, o conhecimento de que se tem crido e surge de reflexão, é sucessora do ato primário – ou primeiro – da fé, da conversão a Jesus Cristo.

Assim, determinando tudo aquilo que já foi discutido anteriormente, se a certeza da salvação é indispensável para a própria salvação e, se ela vem imediatamente após ou não o reconhecimento de Jesus Cristo como Salvador, Shaw explica que a Confissão de Fé de Westminster não considera essencial a segurança da salvação e graça à fé salvadora. E que, dessa forma, a Confissão admite também que uma pessoa pode crer em Cristo, e pode ser justificada por sua fé antes de obter a certeza de que está neste estado, justificada.

Certeza da salvação e justificação caminham muito próximas uma da outra. Acreditamos que, da mesma maneira que muitas pessoas têm grande dificuldade em experimentar da segurança da fé, assim também em compreender o processo da justificação e seus benefícios espirituais... muito provavelmente porque – talvez semelhantemente à certeza – ele não suscita sentimentos que identifiquem uma transformação interior. Antes, exige a fé mais pura e simples de que o fato se deu nos céus. O teólogo inglês J. I. Packer esclarece isto ao afirmar que: “A justificação é uma decisão jurídica conferida ao homem e não uma obra operada no interior do homem; é a dádiva divina de uma posição e de um relacionamento para com Deus e não de um coração novo. Não há dúvida que Deus regenera aqueles a quem justifica, mas essas são duas coisas distintas”. [8]

Podemos concluir, portanto, que a certeza da salvação e seus benefícios podem ser experimentados e desfrutados por todo aquele que crê em Jesus Cristo como Filho de Deus, Salvador; mas, ainda assim, já que esta segurança não é indispensável para a fé salvadora, alguém pode crer em Cristo e pode não estar imediatamente consciente de que tem verdadeiramente crido para a salvação de sua alma. Nisto podemos contemplar a maravilhosa e soberana graça de Deus.

4. Bases neotestamentárias.

É possível experimentarmos a plena certeza da salvação pelo simples testemunho de vida dos personagens bíblicos, tão conhecidos de todos nós. Tanto no Velho quanto no Novo Testamento encontramo-los vivendo impressionantes experiências, conseqüentes da alegria e esperança que depositavam em Deus. Teria Abraão abandonado sua terra e parentela para aquela terra que Deus lhe mostraria e, depois, ainda ter-se-ia permitido todas aquelas provas de fé se não cresse na fidelidade de Deus? Poderia Moisés aceitar o desafio de Deus de libertar o povo hebreu da escravidão no Egito e, viver todas aquelas aventuras se ele mesmo, não estivesse certo de que Deus seria fiel e cumpriria suas promessas?

Tanto nos evangelhos, quanto nas cartas paulinas e gerais podemos encontrar relatos de cristãos convictos de sua salvação, alegres por causa disso e da certeza do amor de Deus por eles. Caso não estivesse absolutamente certo de todas estas coisas, poderia o apóstolo Paulo ter escrito: “Ele me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2:20b)? Ou “Nada nos separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:39b)? Caso este dedicado servo de Deus não estivesse convicto de sua salvação poderia ele testemunhar tão poderosamente, ao escrever da prisão: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia...” (2 Tm 4:7-8a)?

Também o evangelista João confirma: “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida...” (1vJo 3:14a), repetindo palavras que ele próprio ouviu Jesus pronunciar: “... quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24).

Temos, portanto, na Bíblia Sagrada, o registro do testemunho de centenas de vidas que servem como exemplo e estímulo para também nós cultivarmos em nossas vidas a segurança da salvação. O Dicionário Evangélico de Teologia confirma o que já vimos: “A doutrina da segurança espiritual é largamente ensinada no Novo Testamento, particularmente por Paulo, João e o autor de Hebreus”. [9]

Se a vontade do Pai é que creiamos em seu Filho e, dessa forma, tenhamos vida eterna nEle, então não importa se nossa fé é fraca ou forte; importa que é fé depositada em Cristo, então é fé salvadora. Confiar em Cristo como Salvador, é fazer a vontade do Pai, portanto, se assim procedermos, podemos crer que estamos salvos! A obediência aos mandamentos de Deus ministra à nossa própria certeza o favor de Deus e a esperança da vida eterna.

5. Fundamentos espirituais.

Examinando o ensino bíblico descobriremos que, a segurança da salvação tem dois fundamentos (ou bases), um objetivo e outro subjetivo. Primeiro, fundamentado na autoridade objetiva da Palavra de Deus, o crente pode saber que foi escolhido desde a fundação do mundo e que Cristo já o justificou plenamente. Objetivamente, a certeza da salvação, portanto, não repousa sobre experiências emocionais, mas sobre a autoridade do testemunho da obra salvífica de Cristo. Por outro lado, subjetivamente, esta segurança envolve também a convicção pessoal criada pelo Espírito Santo no coração dos pecadores, de que foram perdoados, foram adotados na família de Deus como filhos amados e que pertencem a ele para sempre.

Estes dois fundamentos podem ser percebidos através das evidências que a maioria dos autores pesquisados mencionam, as quais vamos tratar a partir de agora: primeiro, os meios mais comuns que a graça propõe; segundo, o alicerce da Palavra de Deus; terceiro, a ministração do Espírito de adoção.

Podemos alcançar a convicção de nossa salvação pelos meios mais simples que a graça propõe. Podemos nos deixar convencer pelas evidências que o próprio Deus nos dá. O cultivo do hábito constante da oração, o louvor a Deus por meio de um hino, a leitura devocional e o estudo da Bíblia, a prática do evangelismo... trazem a certeza para dentro do nosso coração.

Uma outra evidência que temos para a certeza da nossa salvação é a fidelidade de Deus revelada na Palavra. Quando Deus faz uma revelação incondicional de sua fidelidade, esperamos que nenhum de seus filhos enfrente dificuldade em crer naquilo que ele mesmo prometeu. Podemos mencionar as promessas contidas em João 3:16, 4:14, 10:28; Romanos 8:1; 1 João 5:12 e outras. Lembremo-nos de que, o Senhor vela sobre sua Palavra, para a cumprir (Jeremias 1:12) como Ele mesmo disse por meio do profeta: “... a palavra que eu falar se cumprirá...” (Ezequiel 12:25).

Por fim, o testemunho interior do Espírito Santo na vida do cristão, como o apóstolo Paulo aponta: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8:16) e “E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4:6). É uma segurança ministrada pelo Espírito de Adoção.

Um texto extraído da Internet traz uma interessante ilustração: Durante os últimos estágios da Segunda Guerra Mundial, o General Douglas MacArthur manteve a promessa que tinha feito ao povo das Filipinas quando foi forçado a deixar as ilhas em 1942. Ele retornou com tropas suficientes para ajudar os filipinos a retomar o seu país. Agradecido por sua ajuda quando todos pareciam perdidos, o governo em Manila orientou seus exércitos para começarem uma tradição: gritar o nome de MacArthur em cada chamada para a revista das tropas. Cada companhia designou um oficial que deveria responder, dizendo “Presente em espírito”. Aquele gesto simbólico ajudou a garantir que a dedicação e a coragem do general permanecessem no coração dos soldados mesmo muito tempo depois de sua partida. [10] O Espírito Santo faz coisa semelhante em nossos corações. Ele clama “Paizinho” e prova que Deus é nosso Pai e nós, somos seus filhos. Assim, se você clama, está no caminho do céu, pode ter certeza da sua salvação.

6. Últimas considerações.

Um tema que parece tão simples a princípio revela-se desafiador e fascinante! Apesar de não ser considerado indispensável para a fé salvadora – de forma que alguns crentes serão salvos mesmo sem ter, sequer conhecimento disso – a certeza da salvação contribui para o desenvolvimento da própria fé, para o crescimento espiritual e para o aperfeiçoamento da vida cristã. Como escreveu Berkhof: “O conceito correto parece ser que a fé verdadeira, incluindo, como inclui, confiança em Deus, importa naturalmente em um sentimento de segurança e certeza, embora isso possa variar em grau”. [11]

Como já mencionamos acima, nem sempre o crente pode estar consciente dessa segurança, haja visto que nem sempre vive plenamente a vida de plena confiança e não toma consciência das bênçãos espirituais que lhe são reservadas. Portanto, quando nos encontrarmos sob a influência de dúvidas e incertezas, devemos buscar cultivá-la, de todas as maneiras que o próprio Deus tem colocado ao nosso alcance, sendo que Ele prometeu não apenas salvar-nos, mas também sustentar-nos.

Como pudemos ver anteriormente, a obtenção e a constância da nossa certeza não depende de elementos externos, mas através do cultivo do hábito da oração, o estudo das promessas de Deus reveladas na Bíblia, e pela busca de uma vida transformada, na qual é evidente o fruto do Espírito, ela pode ser alcançada, cultivada e fortalecida.

NOTAS:

1 Augustus Nicodemus, “Segurança da Salvação – Conceito Puritano I” in: Jornal Os Puritanos, ano IV nº 02, 1996.

2 Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, 1988, p 271.

3 John Murray, The Collected Writings of John Murray. 1977, 2 vol, p 264.

4 Thomas Geoffrey, “Segurança da Salvação”, in: Os Puritanos, ano IV – nº 02, 1996, p 07.

5 Claudionor Correia Andrade, Dicionário Teológico, CPAD, 6 ed, 1998, p 80.

6 Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã, LPC, 1985, p 229.

7 Geoffrey, ibid.

8 J. I. Packer, Vocábulos de Deus, Editora FIEL, 1994, pp 129-134.

9 Evangelical Dictionary of Theology, 1984, p 92.

10 new-life@aba2net

11Berkhof, ibid.

Fonte: Revista Pensador Cristão
O Rev. Oslei Nascimento é pastor da Igreja Presbiteriana Central de Londrina – PR.


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A Doutrina da Graça na Vida Prática: Adversidade

A Doutrina da Graça na Vida Prática: Adversidade

por

Terry Johnson




Por favor, leia Romanos 8.26-39; Gênesis 50.15-21

Em 1858, um jovem missionário presbiteriano talentoso chamado John G. Paton, navegou com sua esposa e seu pequeno filho para as ilhas New Hebrides no Pacífico Sul para começar um trabalho missionário entre os ilhéus. Após alguns meses de sua chegada, sua esposa e seu filho morreram, deixando-o sozinho no trabalho.

Em agosto de 1876, um jovem teólogo talentoso chamado Benjamin Breckinridge Warfield e sua esposa, estavam em lua-de-mel na Alemanha. Durante a visita aos pontos turísticos da região da Floresta Negra, eles foram pegos de surpresa por uma terrível tempestade, e algo aconteceu com sua esposa que nunca foi completamente explicado, submetendo-a a uma invalidez para o resto da vida.

Na década de 1950, a congregação da Igreja Presbiteriana Independente de Savana chamou um jovem pregador para tomar as rédeas de uma igreja muito dividida. Ele veio com sua esposa e seus cinco filhos, o mais novo tinha apenas três anos. Depois de um ano e meio, desenvolveu um tumor no cérebro, e após dois anos do início de seu trabalho em Savana, o Rev. Van Puffelen estava morto.

Como você explica estas coisas? Talvez um tanto frustrante. Como você explica as respostas destes indivíduos? John G. Paton permaneceu no campo e teve uma grande colheita, e mais tarde disse:

Eu construí um túmulo cercado com blocos de coral, e cobri o topo com lindos corais brancos, pequenos cascalhos quebrados; e aquele lugar se tornou para mim, meu mais sagrado e freqüentado santuário durante todos os meses e anos que se seguiram, enquanto eu trabalhava na salvação daqueles ilhéus selvagens, em meio a dificuldades, perigos e mortes. Quando esta ilha se voltar para o Senhor, e for ganha para Cristo, nos dias seguintes os homens encontrarão a memória daquele lugar ainda vívida – onde, com incessantes orações e lágrimas, eu reivindiquei aquela terra para Deus, na qual eu “enterrei minha morta” com fé e esperança. [1]

Warfield cuidou de sua esposa durante os quarenta anos em que permaneceram juntos, humilde e submisso, sem lamúrias, sem pena de si mesmo, sem justificar a necessidade de auto-satisfação, cumprindo seus votos matrimoniais, cumprindo seu dever para com sua esposa.

A “Sra. Van” , como era conhecida em Savana, gentil e dócil por fora, forte como cravos por dentro, começou a lecionar no Externato Presbiteriano Independente e educou seus cinco filhos com um tremendo sacrifício próprio, e sem lamúrias.

Qual é a explicação em cada uma destas situações? A explicação é que cada um deles cria na soberania de Deus. Todos entenderam a justiça de Deus, sua misericórdia, seu governo absoluto, e cada um recebeu suas circunstâncias como de Sua mão para seu bem e se submeteram a elas.

Ainda, como você explica a adversidade? Como você lida com o sofrimento que está no mundo? Admita que leva tempo para que nossas emoções alcancem nossas mentes, que não há respostas “fáceis” , e que quando nós perguntamos “por que” , não devemos fazer de forma tão simplista ou como uma questão de fatalidade; porém temos uma explicação para o sofrimento, a única explicação para o sofrimento que opera e abre caminho para o conforto num mundo de dor.


O Problema do Prazer

Do nosso ponto de vista, muito da discussão sobre o “problema da dor” e sofrimento tem começado do jeito errado. Como vimos em nossa consideração sobre predestinação, há uma tendência por começar com a suposição da inocência humana. A adversidade então, é vista como uma intromissão imparcial ou injusta na vida de quem não a merece. Isso está implícito em quase todas as discussões sobre o assunto. Portanto, nós freqüentemente questionamos: “Por que Deus tem permitido que isso aconteça a uma família tão pura (e não merecedora)?”.

O lugar bíblico para se começar qualquer consideração sobre o sofrimento, não é a inocência, mas a culpa. No começo da Bíblia está um relato do que é chamado a “Queda do Homem” . Ele está lá para lembrar-nos que vivemos em um mundo “caído” , um mundo em desordem e sob a maldição de Deus. A resposta de Deus ao pecado de Adão e os pecados de sua descendência é uma condenação. Deus prometeu a morte “no dia em que dela comeres” . Entretanto, num sentido final, a morte foi adiada. Enquanto isso, a vida consiste em múltiplos mini-julgamentos que nos visitam por causa do pecado de Adão e de nossos próprios pecados, como pré-estréias do julgamento final. Estes mini-julgamentos, porque são desprovidos da morte eterna do inferno, são, em efeito, graciosos estágios de execução.

O que estamos dizendo é que cada momento que um de nós vive do lado de cá do inferno é um problema. Como é que um Deus justo e verdadeiro pode tolerar o mal e deixá-lo continuar existindo? Como ele pode atrasar seu aviso de que “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4)? O problema não é a dor, mas o prazer. Uma justiça severa lançará cada um de nós no inferno. Qualquer coisa menor do que isso – enfermidade, injúria, miséria, fome, ou sofrimento profundo – é misericórdia.

Considere a resposta de Jesus à questão de seus discípulos sobre os infelizes galileus que haviam sido massacrados por Pilatos (Lc 13). Eles queriam saber se “estes galileus eram mais pecadores que os outros porque sofreram este destino” . Esta questão é antiga. Aqueles que sofrem, sofrem porque são mais pecadores que as outras pessoas? Podemos dizer que o sofrimento é diretamente proporcional ao pecado? A resposta popular é dizer “não” , e ela está correta. Podemos corretamente citar Jó como um exemplo de um homem que não sofreu por seu pecado pessoal. Jesus, de fato, diz: “Não eram, eu vo-lo afirmo…” Jesus concorda com a resposta popular ao dizer que estas pessoas não eram necessariamente mais merecedoras de sofrimento que outras. Elas não morreram porque eram mais pecadoras que o resto. Nós esperávamos que ele continuasse a falar sobre como o sofrimento é imerecido. Muitas vezes, nós diríamos, os inocentes sofrem neste mundo. Freqüentemente, nós dizemos, é o bom que é injuriado e ofendido. Mas, surpresa, isso não é o que ele diz afinal. Em vez de dizer que alguns são sofredores inocentes, ele diz que todos merecem sofrer deste modo. Ele avisa que “se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” . Em outras palavras, não é que eles sejam piores do que os outros, mas é o que cada pecador merece, e terá, a menos que se arrependa. Jesus não se concentra na tragédia que caiu sobre alguns, mas na graça pela qual a maioria é poupada.

Da mesma maneira, Jesus continuou a falar nos dezoito sobre quem a “torre de Siloé caiu e matou” . Ele pergunta: “(eles) eram mais culpados que os outros habitantes de Jerusalém?” Podemos deduzir, a partir da quantidade de sofrimento que as pessoas suportam, quem é justo e quem é pecador? Não, ele diz. Mas, novamente, isso significa que eles poderiam não ser merecedores? Não. Eles têm o que todos merecem, mas alguns são poupados.

Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis (Lc 13.5).

Assim, o problema do sofrimento, como Jesus o interpreta, não é afinal um problema de dor. A dor pode ser explicada facilmente. Vivemos em um mundo caído e sob julgamento. Todos os piqueniques da vida têm suas formigas. Em nossa lua-de-mel, Emily e eu fomos um dia à praia. Quando chegamos, começou a chover. Não sendo a teóloga da família, ela perguntou: “por que Deus fez isso conosco?” Minha resposta sensível foi: “por que não choveu outro dia? Por que ele permitiu que viéssemos aqui afinal?” Ela não estava para brincadeira. É claro, há sofrimento. O extraordinário não é que exista dor, mas que exista prazer. Uma vez que se entenda a doutrina da queda e da depravação do homem, o problema filosófico não está no explicar o porquê Deus permite o sofrimento, mas no porquê ele mostra graça e misericórdia. Qualquer dor e sofrimento menor que as chamas do fogo eterno no inferno, é um adiamento misericordioso de Deus. Eu posso entender porque sofremos. Eu não posso entender porque não sofremos mais.


Soberania e Dor

Em capítulos anteriores, vimos que a soberania de Deus se estende sobre cada molécula existente. Ele decretou e planejou “tudo quanto acontece” . Então, não pense por um só momento que sua dor está excluída. Quando eu estava no seminário, um jovem cristão muito promissor, um estudante talentoso da Cal Tech [2], com uma mente brilhante, estava se preparando para uma missão de campo com os Tradutores Wycliffe da Bíblia. Ele caiu, em uma viagem a pé e morreu tragicamente. Um teólogo evangélico mundialmente famoso disse em seu funeral: “Esta não era a vontade de Deus” . Em um funeral em Savana, poucos anos atrás, uma declaração similar foi feita no velório de uma jovem mãe que morreu repentinamente: “Deus não queria que isso acontecesse”. Esta posição também é tomada num livro muito popular, Why Bad Things Happen to Good People (Porque Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas). O autor perdeu sua filha adolescente para a leucemia. Ele lutou tentando explicar como Deus poderia ter permitido que isso acontecesse. Note seu modo de pensar. Existem pessoas “boas” (leia “inocentes” ) que não merecem que coisas “más” aconteçam a elas. A resposta que ele deu foi que Deus é bom, mas não há nada que ele possa fazer acerca do sofrimento. Ele não pode interferir. Suas mãos estão atadas. Ele não é culpado. Ele não pode ser acusado. Podemos estar certos de que ele ainda nos ama, pois não foi ele quem fez estas coisas horríveis acontecerem conosco.

O que podemos dizer sobre isso? Em nosso conceito, esta explicação não oferece qualquer consolação e, de fato, é horripilante. Por quê? Considere o seguinte.

Primeiro, se existe um Deus, o que acontece deve ser sua vontade . Se acontece alguma coisa que não é de sua vontade, ele não é Deus, e nós temos um problema. Se existem moléculas perambulando por aí, fazendo o que não foi ordenado por Deus, então ele tem um concorrente igual a ele, portanto não é Deus como a Bíblia o descreve. Para Deus ser Deus, ele deve ser soberano. Para ele ser soberano em tudo, ele deve ser o soberano sobre tudo .

Deixe-me ver se consigo esclarecer o que eu quero dizer. Todos os que crêem em Deus, crêem que ele pode prever todas as coisas. Uma vez que você deixe de crer na presciência, você realmente deixa de crer em Deus. O que ele prevê, certamente acontecerá. Então quando Deus prevê algo e decide permitir que aconteça, ele o faz porque isso convém a seus propósitos. Isso serve a seus planos. A alternativa é dizer que ele prevê coisas e as permite até mesmo que elas não combinem com seus propósitos, o que é claramente ilógico e absurdo. Isso não significa que ele “gosta” do que prevê, ele só permite que aconteça porque encontra algo positivo e alguma razão nisto. O bom Deus permite acontecer o que acontece porque convém a seus propósitos; e seus propósitos são bons.

Às vezes as pessoas tentam evitar as implicações disto apelando para a previsão, dizendo que Deus meramente “prevê” todas as coisas, ele não as fará realmente. Mas conforme pudemos ver, esta distinção não se sustenta. O que um Deus onipotente prevê e permite, ele quer e ordena.

Segundo, ou os eventos têm um significado dado por Deus, ou não têm sentido algum . Na tentativa de manter Deus “fora da armadilha” , as pessoas acabam deixando suas tragédias sem sentido, transformando-as em algo realmente trágico. Você deve reconhecer que não pode haver dois caminhos. Ou Deus está nele, ou ele não está. Se ele não está, então é o diabo, o mal, a “sorte”, o destino, ou o acaso.

Quando eu era pastor dos jovens em Miami, nós presenciamos duas mortes trágicas de pais de adolescentes. Um foi o pai de minha esposa Emily, que sofreu um ataque do coração quando ela tinha apenas dezesseis anos. O outro foi do pai de uma garota de dezesseis anos também, mas as circunstâncias foram diferentes. Enquanto que o pai de Emily morreu de repente, este homem, o Dr. John Richardson, filho do Reverendo J.R. Richardson, morreu lentamente durante um período de quase dois anos. Os dias finais foram diferentes de qualquer coisa que eu já havia visto ou que veria. Ele morreu em casa, rodeado por sua família. Seus últimos momentos foram passados com sua filha mais nova aconchegada a ele de um lado, a outra filha nos seus pés, sua esposa ao seu outro lado, seus filhos sentados junto a sua cama. Esta foi a morte mais triste e mais doce que eu já presenciei. Algumas semanas depois, a filha mais nova veio a mim e perguntou: “Por que Deus permitiu isso?” Minha resposta foi gentilmente dizer: “Ah, ele permitiu, mas teve boas razões” , e continuei, “ e nós nos agarramos a isso porque a única alternativa é dizer que Deus não o permitiu, e não há razão e é apenas uma tragédia sem propósito” . O que você deve fazer agora? Confiar nele! Diga que ele não é o responsável e você perde a oportunidade de confiar nele.

“Deus é grande e Deus é bom”. Esta foi a primeira oração que eu aprendi. Ela também expressa o problema do sofrimento. Por que um Deus grande permite o mal quando ele poderia impedi-lo? Por que um Deus bom permite o mal quando o odeia? Negue qualquer lado da equação e você resolverá o problema do mal: Deus é bom, mas não é grande; ele gostaria de impedir o mal, mas ele é fraco. Deus é grande, mas não é bom; ele não quer impedir o mal porque ele se deleita nele.

Desde Agostinho, os cristãos têm dito que Deus permite o mal para um bem maior. O paradigma é encontrado na crucificação. Quando o homem realizou este grande mal, Deus produziu a partir dele o maior bem. Porém, a crucificação foi realizada pelo “determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23). Deus estava nela; ele a tinha ordenado. Da mesma maneira, ele está em nosso sofrimento. Por ele estar no sofrimento, este tem um propósito, tem um sentido.


Cristo e a Dor

Finalmente, vamos às respostas encontradas em Romanos 8. A maravilha de nossa adoção e conseqüentemente glorificação, leva Paulo a falar do caminho para a glória que é o caminho do sofrimento. Ele diz que nós somos “ co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados ” (8.17). Novamente, ele une o sofrimento e a glória dizendo: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (8.18). Ele fala de nossos “gemidos” e os contrasta com “nossa adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (8.23). Ele estimula à necessidade de “esperança” e “perseverança” (8.24,25). Ele promete a ajuda do Espírito quando oramos “ com gemidos inexprimíveis” (v.26). Então vem a jóia da coroa das promessas bíblicas. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Paulo regozija-se num Deus que está em todas as coisas, fazendo-as trabalhar para o bem daqueles que o amam. E precisamente no caso de que você pudesse parar e duvidar se você ama Deus o suficiente ou não, ele acrescenta: “daqueles que são chamados segundo o seu propósito” . Machen disse sobre estes versos:

… que pequeno conforto existiria nessas palavras se o versículo parasse ali – se nos tivesse sido dito simplesmente que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, e então seríamos levados a acender aquele amor de Deus em nossos corações frios e mortos. Mas, graças a Deus, o versículo não termina ali. O versículo não diz apenas, “ sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus ” . Não, ele diz: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Aí está, meus amigos, o verdadeiro motivo de todo o nosso conforto – não em nosso amor, nem em nossa fé, ou em qualquer coisa que está em nós, mas neste misterioso e eterno conselho de Deus do qual vem toda a fé, todo o amor, tudo o que temos, somos e podemos ser neste mundo e no mundo que está por vir. [3]

Aqueles que amam a Deus são aqueles que foram chamados. Os chamados são aqueles que foram conhecidos de antemão (o que significa amados de antemão) e predestinados. A “corrente de ouro” está exposta no verso 30: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30). Àqueles nos quais Deus colocou seu amor – àqueles que foram chamados eficazmente a Cristo pelo evangelho, que foram justificados e glorificados (o tempo passado indica que Paulo até mesmo vê isso como um fato concluído) – é prometido que tudo tem um bom propósito para eles. O próprio Deus o garante.

Quando eu tinha três anos, meus pais distraidamente deixaram minha irmã e eu no carro da família depois que voltamos da Igreja num domingo. Nós brincávamos e eu soltei o freio de mão. O carro começou a rolar pela rampa da garagem. Nós nos apavoramos. Minha irmã pulou para fora do carro. Ela tinha cinco anos – podia fazer aquilo. Eu caí debaixo da roda dianteira, e nossa perua Plymouth ano 56 passou por cima das minhas costas, pescoço e cabeça.

Quando eu tinha quinze anos, eu estava praticando com o time de futebol do colégio, que incluía três futuras estrelas do futebol universitário, entre eles Vince Feragammo. Certa tarde, eu corri um “ reinício ” [4] padrão, peguei a bola, contornei o campo, tentei evitar meu defensor; nesta tentativa de evitá-lo, subitamente senti uma dor aguda na minha coxa. Um barulho tão forte como o de um galho de árvore quebrando pôde ser ouvido em todo o campo enquanto eu caía, minha perna torceu debaixo de mim, meu fêmur estava caprichosamente quebrado.

Por quê? Eu não sei. Eu não tenho que saber. Tudo o que eu sei é que Deus estava nesse acontecimento, e o estava trabalhando para o bem.

Alguns de vocês já sofreram coisas muito piores que isso. Alguns de vocês perderam filhos e netos em acidentes e doenças. Outros foram assolados pela morte de seus maridos e esposas. Amigos, parentes, outros amados têm sofrido com circunstâncias trágicas. Você tem gritado. “Ah não, isso não – tudo menos isso! Senhor, por quê? Por que o Senhor fez isso?” Talvez você tenha cultivado amargura. Você tem estado ressentido com Deus desde então. Você está desiludido e confuso. Tenha isso por certo – em Cristo, embora o diabo, o mundo e os inimigos tenham planejado sua destruição, Deus estava trabalhando todas as coisas para o bem.

Considere a vida de José. Que adversidades ele sofreu! Pense em seu coração quebrado por causa da total rejeição por parte de seus irmãos, que estavam prontos para matá-lo de imediato. Pense na dor de ter sido vendido como escravo, sendo obrigado a deixar sua família, e não vê-la por décadas. Mesmo no Egito ele teve que lidar com a falsa acusação de tentativa de estupro, armada pela esposa de Potifar, o qual o lançou na cadeia. Ele tinha muitos motivos para a amargura. Pense em tudo o que Deus permitiu que acontecesse. Sua infância lhe foi tirada, foi tirado de sua terra natal e de sua família, bem como seu bom nome, por que ele não deveria amaldiçoar a Deus? Mas o que ele diz? Ele vê a mão soberana de Deus em tudo. Primeiro, ele diz a seus irmãos: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito” (Gn 45.8). E numa segunda ocasião ele diz: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20). Leia de novo: “Deus o tornou em bem”, ele diz.

Algumas vezes, até mesmo muitas vezes, não saberemos que bem Deus estará trazendo da adversidade. Este não é o ponto crucial. O ponto crucial é saber que Deus é bom e que ele quer isso! Quando você perdeu seu amado, ele o quis. Quando você foi afligido por doenças, ele o quis. Quando você foi atingido por reversões financeiras, ele o quis. Ele promete transformar isso em bem. Agora você precisa confiar nele.

Crer na soberania de Deus tem algum impacto prático sobre a vida? Eu espero que você tenha começado a entender que estas doutrinas são vitais. Somente quando entendemos que Deus ordenou nosso sofrimento, podemos começar a entender o sentido dele. Somente então, estaremos certos de que ele tem um propósito. Quando as tragédias vierem, quando as adversidades atacarem, não seremos abalados. Sim, nós choraremos. Sim, nós sofreremos. Mas continuaremos andando confiantes, sabendo que Deus está no seu trono, que estamos em suas mãos, que nossas circunstâncias são seus feitos, e que ele trabalha este mal para o nosso bem.


Notas:

1. Iain Murray, The Puritan Hope , Banner of Truth, pp.179, 180.

2. NT – Cal Tech refere-se a California Technology School.

3. J. Gresham Machen, The Christian View of Man , Banner of Truth, p.68.

4. NT – Do inglês “quick-out”, refere-se ao início ou reinício do jogo no futebol americano.


Fonte: Extraído de A Doutrina da Graça na Vida Prática, Terry Johnson, Ed. Cultura Cristã, 2001. São Paulo, SP. p.45-58.


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Corações Cativos, Igreja Cativa

Corações Cativos, Igreja Cativa

por

R. C. Sproul

Durante a Reforma Protestante, Martinho Lutero escreveu um pequeno livreto intitulado “O Cativeiro Babilônico Da Igreja”. Nele, Lutero comparou o regime opressor de Roma no século XVI ao suplício de Israel, enquanto era mantido cativo às margens dos rios da Babilônia.

Eu tenho freqüentemente me perguntado como Lutero se posicionaria em nossa presente era e no estado em que a igreja se encontra nos dias de hoje. Eu suspeito que ele escreveria para nosso tempo seu livro, sob o título "O Cativeiro Pelagiano da Igreja". Eu tenho tal suspeita pelo fato de que o próprio Lutero tenha considerado precisamente este como o livro mais importante que já redigiu, sua magnum opus, “A Escravidão da Vontade” (De Servo Arbítrio).

Penso também que Lutero enxergaria a grande ameaça para a igreja de hoje devido ao Pelagianismo, em razão do que se desenrolou depois da Reforma. Historiadores tem dito que apesar de Lutero ter vencido a batalha contra Erasmus no século XVI, ele a perdeu no século XVII e foi afinal demolido no século XVIII, graças às conquistas obtidas pelo Pelagianismo e pelo Iluminismo. Ele veria a igreja de hoje enlaçada pelo Pelagianismo, tendo assim este inimigo da fé conseguido estabelecer uma fortaleza sobre nós.


O Pelagianismo em sua forma pura foi pela primeira vez articulado pelo homem cujo nome cunhou seu ensino, um monge bretão do século Quarto. Pelágio envolveu-se em um feroz debate com Santo Agostinho, um debate provocado pela reação do monge à oração de Agostinho: "Ordena aquilo que Tu desejas, e conceda aquilo que Tu ordenas". Pelágio insistia que uma obrigação moral necessariamente implicava em capacidade moral. Se Deus exigia dos homens que estes vivessem vidas perfeitas então estes homens deveriam ter a capacidade de viver tais vidas perfeitas. Isto levou Pelágio a sua completa negação do pecado original 1. Ele insistia que a queda de Adão tinha afetado somente o homem Adão; não haveria a realidade da natureza humana caída e herdada que afligiria a humanidade. Além disso, refutava a idéia da necessidade da graça como necessária para a salvação; afirmava que o homem seria capaz de ser salvo por suas obras sem a necessidade de assistência da graça. O pensamento de Pelágio foi: a graça pode facilitar a obediência, mas não seria uma condição necessária para tal.

Agostinho triunfou em sua luta contra Pelágio, cujas visões foram conseqüentemente condenadas pela igreja. Ao condenar o Pelagianismo como heresia, a igreja veementemente confirmou a doutrina do pecado original. Na visão de Agostinho, isto sedimentou e alicerçou a noção de que apesar do homem caído ainda possuir um vontade livre no sentido que ele retém a capacidade de escolher, sua vontade é decaída e escravizada pelo pecado a tal ponto, em tamanha magnitude e extensão, que o homem não possui liberdade moral. O homem não pode não pecar.


Depois do encerramento do conflito, visões modificadas de Pelagianismo voltaram a assombrar a igreja. Essas visões foram aglutinadas sob o nome de semi-Pelagianismo. O semi-Pelagianismo admitiu a Queda como real e uma real transferência do Pecado Original para a descendência de Adão. O homem está arruinado e caído, e precisa da graça a fim de que seja salvo. Contudo, esta visão insiste que nós não estamos tão decaídos a ponto de nos encontrarmos totalmente escravizados pelo pecado ou totalmente depravados em nossa natureza. Uma ilha de justiça permanece no homem decaído por meio da qual tal pessoa ainda possui poder moral para inclinar-se, por si mesmo, sem a intervenção da graça operativa, em direção às coisas de Deus.

Apesar da igreja antiga ter condenado o semi-Pelagianismo tão vigorosamente quanto condenou o próprio Pelagianismo, ele de fato nunca morreu. No século dezesseis os magistrados reformadores ficaram convencidos que Roma havia se degenerado do puro Agostinianismo e abraçado o semi-Pelagianismo. Não é um detalhe histórico insignificante mencionar que o próprio Lutero tenha sido um monge da Ordem Agostiniana. Lutero viu em sua luta contra Erasmus e Roma, um retorno ao conflito titânico entre Agostinho e Pelágio.

No século dezoito, o pensamento Reformado foi desafiado pelo surgimento do Arminianismo, uma nova forma de semi-Pelagianismo. O Arminianismo conseguiu capturar o pensamento de proeminentes homens, como por exemplo John Wesley. A cisão doutrinária entre Wesley e George Whitefield focava-se neste aspecto. Whitefield enfileirou-se então para o lado de Jonathan Edwards na defesa do Agostinianismo clássico durante o "Grande Avivamento" norte-americano.

O século XIX testemunhou o reavivamento do Pelagianismo puro através dos ensinamentos e da pregação de Charles Finney. Finney não dosou palavras acerca de seu Pelagianismo escancarado. Finney rejeitou a doutrina do Pecado Original (junto com a visão ortodoxa da Expiação e a doutrina da Justificação Somente pela Fé). Mas a tremenda bem-sucedida metodologia evangelística de Finney de tal forma marcou e envolveu seu nome, que ele se tornou um modelo reverenciado pelos modernos evangelistas e ainda hoje comumente é considerado um herói da Fé Evangélica, a despeito de sua completa rejeição à própria doutrina evangélica.

Apesar da Fé Evangélica americana não ter abraçado o Pelagianismo puro e direto de Finney (fato que coube aos Liberais o fazerem), tal pensamento infectou profundamente o meio evangélico por meio do pensamento e da teologia semi-Pelagiana,a tal ponto que o semi-Pelagianismo é percebido ostensivamente nos dias modernos de forma aguda e profunda, em diversas camadas do pensamento teológico evangélico. Apesar da maioria dos evangélicos não hesitarem em afirmar que o homem caiu, poucos abraçam a doutrina reformada da Total Depravação.

Trinta anos atrás eu estava ensinando Teologia em uma faculdade evangélica que era pesadamente influenciada pelo semi-Pelagianismo. Eu estava trabalhando sobre os 5 pontos do Calvinismo usando o acróstico TULIP com uma classe com cerca de 30 alunos. Após apresentar uma extensa e detalhada exposição da doutrina da Total Depravação, eu perguntei à classe quantos deles estavam convencidos acerca da doutrina. Todos os 30 levantaram as mãos.

Eu sorri e disse: “Veremos...”

Eu escrevi o número 30 no canto esquerdo do quadro-negro. Enquanto eu prosseguia com a doutrina da eleição incondicional, muitos dos estudantes então começaram a pular e reagir. Fui subtraindo do número original 30 os que iam manifestando sua insatisfação e desacordo. Quando atingi a doutrina da Expiação Limitada, o número tinha caído de trinta para três.

Então eu tentei mostrar aos estudantes que se eles realmente abraçassem a doutrina da Total Depravação, então as outras doutrinas descritas nos 5 Pontos deveriam simplesmente na verdade ser consideradas como notas de rodapé. Os alunos logo descobriram que de fato eles realmente não acreditavam na total depravação do homem, no final das contas. Eles acreditavam em depravação, mas não no sentido total. Eles ainda desejavam reter a convicção sobre uma ilha de justiça que não tinha sido afetada pela Queda por meio da qual pecadores poderiam ainda manter uma capacidade moral para se inclinarem por si próprios a Deus. Eles acreditavam, sim, que a fim de ser regenerados, eles precisavam primeiro exercer fé por meio do exercício de suas vontades. Eles não criam que a divina e sobrenatural ação do Espírito Santo seria uma pré-condição necessária para fé.

Erasmus havia vencido.

Os autores da introdução ao ensaio sobre “A Escravidão da Vontade” escreveram:

“Qualquer um que terminar este livro sem ter percebido que a teologia evangélica mantém-se em pé ou cai com a doutrina da Escravidão da Vontade, o leu inutilmente. A doutrina da justificação livre unicamente pela fé, que se tornou o olho do furacão de tamanha controvérsia surgida no período da Reforma Protestante, é considerada com freqüência como o coração da Teologia dos Reformadores, mas isto é dificilmente preciso. A verdade é que o pensamento de tais homens estava realmente concentrado sobre esta contenda...que a completa salvação do pecador tem lugar pela livre e soberana graça unicamente...é pois a nossa salvação completamente da parte de Deus, ou a final de contas depende de algo que depende de nós mesmos? Aqueles que afirmam a segunda opção (os Arminianos o fazem) portanto negam a declarada incapacidade do homem advinda do pecado, e também confirmam que uma forma de semi-Pelagianismo é verdadeiro, de alguma maneira. Não é de se admirar, portanto, que a primitiva teologia Reformada condenou o Arminianismo, como sendo em princípio um retorno a Roma... e uma traição à Reforma... o Arminianismo foi, verdadeiramente, aos olhos dos Reformadores, uma renúncia ao Cristianismo do Novo Testamento em favor do Judaísmo neotestamentário; pelo fato de alguém se garantir a si mesmo por fé, não ser afinal diferente em nada do princípio de se repousar nas suas própria obras, sendo anti-Cristão tanto um pensamento quanto o outro”.

Estas são palavras severas. Verdadeiramente para alguns são até palavras contenciosas. Mas de uma coisa eu estou certo: elas espelham e refletem com precisão os sentimentos de Agostinho e dos Reformadores. A questão da magnitude e extensão do Pecado Original está atrelado inseparavelmente à nossa compreensão da doutrina da Sola Fide. Os Reformadores compreenderam claramente que existe uma imprescindível ligação entre Sola Fide e Sola Gratia. Justificação unicamente pela fé significa pela graça unicamente.

Assim sendo, o semi-Pelagianismo em seu formato Erasmiano cria uma ruptura entre as duas e apaga o fator SOLA do temo Sola Gratia.


NOTAS:

1. Entenda-se pelo termo teológico PECADO ORIGINAL, não o próprio ato de desobediência que Adão e Eva cometeram no jardim, ao comerem do fruto da árvore sobre a qual o Senhor Deus os havia advertido, mas às conseqüências abrangentes deste ato sobre toda a sua posteridade.


Tradução: HERON J. B. DE MOURA


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A Doutrina Bíblica da Eleição

A Doutrina Bíblica da Eleição

por

C. D. Cole

INTRODUÇÃO

Fui ricamente abençoado pelos escritos do Dr. C. D. Cole. Ele foi um grande pregador doutrinário, com o dom de colocar suas palavras em forma de livros. O irmão Cole está com o Senhor agora. Enquanto em vida ainda viu publicado seu Segundo Volume sobre Pecado, Salvação e Serviço.

Na realidade, morreu lendo o livro.

A Igreja Batista de Bryan Station imprimiu estes livros. O filho dele nos deu permissão de imprimi-los e este é mais um de uma série que esperamos imprimir. A Parte I já foi imprimida antes e a estamos reimprimindo como no original. A Parte II deste livrete está incluída como uma introdução ao mesmo.

Que o Senhor abençoe sua Palavra enquanto for lida por todos aqueles que estudam estas páginas.

Alfred H. Gormley, Pastor: A Igreja Batista de Bryan Station; Lexington, Kentucky, EUA


A DOUTRINA DA ELEIÇÃO

PARTE I

Eleição! Que palavra abençoada! Que doutrina gloriosa! Quem não se regozija ao saber que foi escolhido para uma grande bênção! A eleição é para a salvação - a maior de todas as bênçãos. E é estranho dizer que é uma verdade negligenciada, mesmo por muitos que dizem crer nela. Outros têm um sentimento de repulsa à simples menção desta verdade revelada na Bíblia, que honra a Deus e torna o homem mais humilde. Spurgeon disse: "Parece haver um preconceito arraigado na mente humana contra esta doutrina, e embora a maioria das outras doutrinas seja recebida por crentes professos, algumas com cuidado, outras com prazer, esta parece ser mais comumente negligenciada e rejeitada". Se isto era verdade no tempo de Spurgeon, quanto mais o é em nossos dias. Com respeito a esta doutrina há um abandono alarmante da fé de nossos antepassados batistas. E por falar neste artigo de nossa fé, os batistas chegaram ao ponto de ter um credo calvinista e outro arminiano.

Mas há alguns que amam a doutrina da eleição. Para eles, ela é a base profunda sobre a qual as outras doutrinas da redenção humana são colocadas. E a amam o bastante para pregá-la, mesmo em face a críticas e perseguição. E preferem resignar a seus púlpitos, do que ficarem calados sobre este princípio precioso da fé, uma vez entregue. Mas todos os que amam a doutrina a odiaram um dia, portanto não têm nada de que se vangloriar. Cada homem é um arminiano por natureza. É preciso que o trabalho regenerador do Espírito Santo e da Palavra de Deus, ensinada pelo Espírito, façam uma pessoa amar a doutrina da eleição. Como é profundamente importante que os crentes a aprendam! Para isto devemos conhecer a sabedoria superior de Deus, cujos "pensamentos não são os nossos pensamentos". A Bíblia foi dada para corrigir nosso modo de pensar. O arrependimento é uma mudança de mente como resultado de uma mudança no modo de pensar. Não podemos ir à Bíblia como críticos; ela é quem nos critica. Não podemos ir à Bíblia como se fôssemos infalíveis, mas pela graça, podemos ir humildemente. Que Deus dê graça a cada escritor e leitor, para que possamos ter a atitude de coração certa diante de Deus. A evidência mais real de que uma pessoa é salva, é a atitude certa que ela tem em relação à Palavra de Deus. Caro leitor: Deixe que o escritor o avise contra "fazer pouco" sobre qualquer doutrina da Bíblia.

As doutrinas da graça têm encontrado expressão em dois sistemas de teologia, conhecidos comumente como Calvinismo e Arminianismo. Estes dois sistemas não receberam o nome de seus fundadores, mas foram eles que os popularizaram. O sistema da verdade, conhecido como Calvinismo, foi pregado por Augustinho, no tempo antigo, e antes dele por Cristo e os apóstolos, sendo enfatizado especialmente pelo apóstolo Paulo. O sistema do erro, conhecido como Arminianismo, foi proclamado por Pelágius, no século V. Entre estes dois não há posição mediana; cada homem está de um lado ou de outro, em seu pensamento religioso. Alguns tentam misturar os dois, mas este não é um pensamento correto. Dizer que não somos Calvinistas nem Arminianos é fugir do assunto. O Paulinismo é representado ou pelo Calvinismo ou pelo Arminianismo. O sistema verdadeiro é baseado sobre a verdade da depravação total do homem; o sistema do erro é baseado sobre o dogma romano da vontade própria.

OBSERVAÇÕES GERAIS PARA ACABAR COM O PRECONCEITO

Não há nenhuma doutrina tão vergonhosamente mal representada. A queixa do irmão A. S. Pettie contra os inimigos da depravação total é aplicada aqui com toda justiça, quando ele diz: "De lábios hostis, uma afirmação justa e correta da doutrina, nunca é ouvida". O tratamento que a doutrina da eleição recebe das mãos de seus inimigos é muito parecido com o que os cristãos primitivos receberam dos imperadores romanos. Os cristãos antigos foram muitas vezes vestidos de peles de animais sacrificados, e depois sujeitos ao ataque de animais selvagens ferozes. Do mesmo jeito a doutrina da eleição é vestida com um traje horrível, e exposta ao ridículo e zombaria. Agora vamos tentar despir esta verdade gloriosa do seu traje falso e vicioso, com o qual mãos inimigas a vestiram, e colocar os trajes de santidade e sabedoria.

1. Eleição não é salvação, mas é para a salvação. "Pois que? o que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos", Rom. 11:7; "...por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação"; II Tess. 2:13. Então, se o eleito obtém a salvação, e a eleição é para a salvação, ela deve preceder à salvação. Os homens são salvos quando crêem em Cristo, não quando são eleitos. Roosevelt não foi presidente quando foi eleito, mas quando foi empossado. Não houve só uma eleição, mas uma indução ao cargo. Os eleitos de Deus são induzidos à posição de santidade pela chamada eficaz (o trabalho de vivificação do Espírito Santo), através do qual tornam-se crentes no Evangelho. Veja I Cor. 1:29 e II Tess. 2:13-14.

2. A eleição não é a causa de ninguém ir para o inferno, porque a eleição é para a salvação. Também a eleição não é responsável pela perdição dos pecadores. O PECADO é que manda os homens para o inferno, e todos os homens são pecadores por natureza e prática - totalmente pecadores, à parte da eleição ou não. Isto não quer dizer que porque a eleição é para a salvação, que a não eleição é para a perdição. O PECADO é o elemento que condena na vida do homem. A ELEIÇÃO NÃO PREJUDICA A NINGUÉM.

3. A eleição pertence ao sistema da graça. Nos dias de Paulo houve um remanescente entre os judeus que foi salvo de acordo com a eleição da graça (Rom. 11:5). A atitude dos homens em relação à eleição é o teste final de sua crença na graça. Aqueles que se opõem à eleição não podem consistentemente proclamar que crêem na salvação pela graça. Isto é visto nos credos da cristandade. As denominações que crêem na salvação pelas obras não dão lugar à doutrina da eleição em suas confissões de fé; os que crêem na salvação pela graça, à parte do mérito humano, não falham em incluir eleição em seu credo escrito. Um grupo é encabeçado pelos católicos romanos; o outro grupo pelos batistas.

4. A eleição não impede a salvação de ninguém que queira ser salvo. Mas é preciso fazer uma distinção entre um simples desejo de se escapar ao inferno e o desejo de ser salvo do pecado. O desejo de ser salvo do inferno é natural - ninguém quer ficar queimando. O desejo de ser salvo do pecado é espiritual, e é um resultado da obra convincente do Espírito Santo. E a graça eficaz de Deus é a mãe desse desejo. Representar a eleição dizendo que Deus prepara o banquete do Evangelho, e um homem chega à mesa faminto pelo pão da vida, mas Deus diz: "Não! Isto não é para você, pois não é um dos meus eleitos", é representar mal a Santa Doutrina. Aqui está a verdade: Deus preparou o banquete, mas o fato é que ninguém quer vir à mesa! "E todos à uma começaram a escusar-se". Deus sabia como a natureza caída ia agir, e Ele não perdeu a chance de que Sua mesa ficasse completa, por isso disse a Seus servos que saíssem e os compelissem a vir. Veja Lucas 14:23. Se não fosse pela obra redentora de Cristo, não haveria nenhum banquete do Evangelho; se não fosse pela obra compulsória do Espírito Santo, não haveria nenhum convidado à mesa. Um simples convite não traz ninguém à mesa.

5. A eleição significa que o destino dos homens está nas mãos de Deus. Muitos de nós consideramos como um axioma a afirmação de que o destino de cada homem está em suas próprias mãos. Mas isto é negar o teor inteiro das Escrituras. Em nenhum momento o destino dos santos está em suas mãos, nem antes nem depois de salvos. Meu destino estava em minhas próprias mãos antes da minha salvação? Se estivesse, eu me regenerei e ressuscitei pelo meu próprio poder, de um estado de pecado e morte; sou meu próprio benfeitor e não tenho que agradecer a ninguém, a não ser a mim mesmo por estar vivo e salvo. Que tal pensamento pereça! "Pela graça de Deus sou o que sou". Leia João 1:13, Efésios 2:1-10, II Timóteo 1:9 e Tiago 1:18.

Meu destino está em minhas próprias mãos agora? Então vou me manter salvo ou perder a minha salvação. Mas a Bíblia diz que somos guardados pelo poder de Deus, através da FÉ. I Pedro 1:15, Salmos 37:28, João 10:27-29, Filipenses 1:6 e Hebreus 13:5. Se meu destino não estiver seguro em minhas mãos depois da minha salvação, então como poderia imaginá-lo salvo em minhas próprias mãos antes da minha conversão?

O santo morre, seu corpo é sepultado e se torna pó. O destino dele está ainda em suas mãos? Se estiver, que esperança tem de sair do túmulo com um corpo imortal e incorruptível? Ninguém, mas ninguém mesmo, tem seu destino em suas próprias mãos.

Tal teoria, de que o destino dos santos está ou já esteve em suas mãos, é contrária às próprias leis da natureza e implica que a água pode subir acima do nível de sua fonte; que o homem pode erguer-se até o sótão pelo cadarço do sapato; que o etíope pode mudar sua cor e o leopardo pode tirar suas manchas; que a morte pode gerar a vida; que a evolução é verdade e que Deus é mentiroso. A teoria de que o destino de alguém está em suas mãos gera autoconfiança e justiça própria; a crença que o destino está nas mãos de Deus gera AUTO-ABNEGAÇÃO E FÉ EM DEUS.

6. A eleição permanece firme ou cai com a doutrina da soberania de Deus e depravação do homem. Se Deus é soberano e o homem é depravado, então segue-se uma conseqüência natural, que alguns serão salvos, ou ninguém será salvo, ou todos serão salvos. Os resultados práticos da eleição são que alguns, sim muitos, serão salvos. A eleição não é um plano para salvar só um simples bocadinho de gente. Cristo deu-Se como resgate por muitos. Veja Mateus 20:28 e Apocalipse 5:9. A soberania de Deus envolve Seu prazer, João 5:21 e Mateus 11:25-27; Seu poder, Jó 23:13, Jeremias 32:17 e Mateus 19:26; e Sua misericórdia Rom. 9:18.

7. Os eleitos são manifestados em arrependimento, fé e boas obras. Estas graças, sendo feitas por Deus ao homem, não são as causas, mas as evidências da eleição. Veja I Tessalonicenses 1:3-10, II Pedro 1:5-10, Filipenses 2:12-13 e Lucas 18:7. O homem que não ora, que não se arrepende dos seus pecados e confia em Cristo, e que não se empenha nas boas obras não tem o direito de dizer que é um dos eleitos de Deus.

ALGUNS PONTOS DE VISTA FALSOS EXAMINADOS E REFUTADOS

Muitos crentes professos realmente não têm uma opinião sobre eleição. Eles nem mesmo pensam bastante, nem estudam para ter qualquer opinião sobre ela. Muitos têm pontos de vista errados. Vamos notar alguns deles.

1. O ponto de vista que os homens são eleitos quando crêem. Este ponto de vista é facilmente refutado, porque é contrário tanto ao senso comum, quanto às Escrituras. A eleição é para a salvação, e portanto, deve precedê-la. Não tem sentido falar em eleger um homem para alguma coisa que ele já tem. O homem tem salvação quando crê e portanto a eleição neste ponto não seria necessária. A ELEIÇÃO TEVE LUGAR NA ETERNIDADE: A SALVAÇÃO TEM LUGAR QUANDO O PECADOR CRÊ.

2. O ponto de vista que a eleição pertence só aos judeus. Este ponto de vista tira dos gentios o conforto de Romanos 8:28-29. Além disso, Paulo, que foi um apóstolo aos gentios, diz que ele suportou tudo pelos eleitos, para que eles pudessem obter a salvação, II Timóteo 2:10.

3. O ponto de vista que a eleição teve lugar na eternidade, mas que foi tendo em vista o arrependimento previsto e fé. De acordo com este ponto de vista, Deus, na eternidade, olhou através dos séculos e viu quem ia se arrepender e crer, e estes que Ele viu de antemão foram eleitos para a salvação. Este ponto de vista está correto só em um ponto, que é: a eleição teve lugar na eternidade. Mas está errado quando faz a base da eleição ser algo no pecador, em vez de alguma coisa em Deus. Leia Efésios 1:4-6, onde diz que a eleição e predestinação são "segundo o beneplácito de Sua vontade" e "para louvor e glória de Sua graça". Este ponto de vista, apesar de ser o mais popular entre a maioria dos batistas hoje, está aberto a muitas objeções:

(1) Ele nega o que a Bíblia diz sobre a condição do homem por natureza. A Bíblia não descreve o homem natural como tendo fé, I Coríntios 2:14 e João 3:3. Tanto o arrependimento quanto a fé são dons de Deus, e Ele não viu estas graças em nenhum pecador, à parte do Seu propósito de dar-lhes. "Deus com a Sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados", Atos 5:31. "E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida", Atos 11:18. "Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade", II Timóteo 2:25. Leia também Efésios 2:8-10 e I Coríntios 3:5. A eleição não foi por causa de uma fé prevista, mas por causa da descrença prevista. Não é a eleição dos fiéis de Deus, mas a fé dos eleitos de Deus, se quisermos manter as palavras da Escritura, Tito 1:1.

(2) Ele faz a raça humana diferir por natureza, visto que, a Bíblia diz, que todos nós somos por natureza filhos da ira e todos barro da mesma massa, Efésios 2:3 e Romanos 9:21. Os a homens são diferentes quanto ao novo nascimento, João 3:6.

(3) Ele perverte o significado das Escrituras da palavra "pré-conhecimento". Esta palavra, como está na Bíblia, significa mais do que conhecimentos sobre as pessoas. É o conhecimento das pessoas. Em Romanos 8:29-30 os conhecidos são predestinados à imagem de Cristo, e são chamados, justificados e glorificados. Em I Pedro 1:2 a palavra para "presciência" é a mesma para "conhecido" no vigésimo versículo do mesmo capítulo, onde o significado não pode ser "conhecimento" sobre Cristo. O conhecimento de Deus sobre as pessoas não tem limites, ao passo que Seu conhecimento de pessoas é limitado aos que são realmente salvos e glorificados.

(4) Ele está aberto à objeção mais forte que pode ser feita contra o ponto de vista da Bíblia. Sempre se pergunta: "Se certos homens são eleitos e salvos, então o que adianta pregar aos que não são eleitos? Com igual propriedade podemos perguntar: "Se Deus sabe quem vai se arrepender e crer, então porque pregar àqueles que de acordo com Seu conhecimento não vão se arrepender nem crer?" Será que alguns que Ele sabia que não se arrependeriam nem creriam, vão se arrepender e crer? Se for assim, Ele previu uma mentira.

É esta a fraqueza de muitas missões modernas. Ela está baseada na compaixão pelo perdido e não na obediência ao mandamento de Deus. A inspiração das missões é feita para depender dos resultados práticos do esforço missionário e não no prazer de fazer a vontade de Deus. É o princípio de fazer uma coisa, porque os resultados nos satisfazem.

Se formos fiéis, Deus se agradará com os nossos esforços, mesmo sem resultados. Pense em II Coríntios 2:15-16. A eleição precedente à conversão deles é conhecida só a Deus. Temos que pregar o Evangelho a cada criatura, porque Ele mandou fazer isto. Deus cuidará dos resultados. Veja Isaías 55:11, I Coríntios 3:5-6 e João 6:37-45. Nossa responsabilidade é testemunhar; Deus é quem fará nosso testemunho eficaz.

A DOUTRINA DEFINIDA, EXPLICADA E PROVADA.

O que é eleição, como o termo é usado na Bíblia? Eleição significa uma escolha - selecionar dentro - separar - tomar um e deixar o outro. Se houvesse uma dúzia de maçãs numa cesta e eu tirasse todas elas, não haveria escolha; mas se eu tirar sete e deixar as outras cinco, então houve escolha. A eleição, como é ensinada na Bíblia, significa que Deus fez uma escolha entre os filhos dos homens. No princípio Ele fez Sua escolha sobre certos indivíduos a quem deu Seu Filho, e por quem Cristo morreu como Substituto, e que no tempo certo ouvem o Evangelho e crêem em Cristo para a vida eterna. Vamos ampliar o assunto, fazendo três perguntas muito relativas:

1. QUEM FAZ A ELEIÇÃO? Quem escolhe as pessoas para serem salvas? Se os homens são escolhidos para a salvação, como afirmam as Escrituras, quem fez a escolha? Deve haver uma seleção ou universalismo. A linguagem das Escrituras parece definir peculiarmente em resposta a esta pergunta. Marcos 13:20 fala do ELEITO, a quem Ele ELEGEU, traduzido em nossa versão: "...por causa dos eleitos que Ele escolheu". A palavra eleição está associada com Deus e não com o homem. Deus é quem escolhe. Seu povo são os ESCOLHIDOS e a graça é a fonte. A teologia de que Deus vota a nosso favor, Satanás contra, e que nós damos o voto decisivo é completamente fora dos ensinamentos das Escrituras, e é quase ridícula demais para ser notada. Leia João 15:16, II Tessalonicenses 2:13 e Efésios 1:4.

2. QUANDO A ELEIÇÃO É FEITA? Como resposta somos silenciados pelas Escrituras. Mas a Bíblia responde com clareza total. Em Efésios 1:4 lemos que "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo". A expressão "antes da fundação do mundo" é encontrada em João 17:24, onde fala de amor eterno do Pai pelo Filho, e em I Pedro 1:20, onde se refere à determinação eterna da mente divina, em relação à morte de Cristo. Há muitas expressões semelhantes. Veja Apocalipse 13:8, II Tessalonicenses 2:13 e II Timóteo 1:9. A ELEIÇÃO É ETERNA!

3. POR QUE FOI FEITA A ELEIÇÃO? Ela foi baseada em algo bom no pecador? Então ninguém teria sido eleito, porque não há ninguém bom. A santidade não é a causa, mas o efeito da eleição. Fomos escolhidos, não porque fôssemos santos, mas para que fôssemos santos. Efésios 1:4. Como já vimos antes, a eleição não foi feita tendo em vista arrependimento e fé previstos. A eleição é a causa de arrependimento e fé, e não o efeito destas graças. Dizer que Deus escolheu homens para a salvação porque viu que eles se arrependeriam, creriam e seriam salvos é atribuir tolices ao Deus infinitamente sábio. É como se o presidente assinasse um decreto que o sol deverá nascer amanha, porque ele previu que nascerá; ou como se um escultor escolhesse um pedaço de mármore, porque previu que ele se transformaria na imagem desejada por ele. Desafiamos qualquer arminiano a fazer estas perguntas e conseguir as respostas nas Escrituras.

OBJEÇÕES CONSIDERADAS E RESPONDIDAS

Muitas são as objeções feitas contra esta doutrina. As vezes, os objetores se tornam barulhentos e furiosos. Que pena que tantos destes objetores estejam nas fileiras batistas! Pregar esta doutrina antiquada da nossa fé, como fizeram Bunyan, Fuller, Gill, Spurgeon, Boyce, Broadus, Pendleton, Graves, Jarrel, Carrol, Jeter, Boyce Taylor e uma multidão de outros homens representantes da nossa denominação, é cortejar o tipo mais amargo de oposição. O próprio John Wesley nunca disse palavras mais ásperas contra esta doutrina abençoada de nossa fé, como o fazem alguns "batistas" de hoje. O Arminianismo que descende do papado, tem crescido anormalmente nas duas últimas décadas, como o filho adotivo de um grande grupo de batistas.

1. OBJETA-SE QUE NOSSO PONTO DE VISTA DA ELEIÇÃO LIMITA A MISERICÓRDIA DE DEUS.

Aqui mesmo criticamos os críticos, porque quem faz esta objeção, limita tanto a misericórdia como o poder de Deus. Ela admite que a misericórdia de Deus é limitada ao crente, e concordamos com isto, mas nega que Deus pode fazer um homem crer, sem forçar-lhe a vontade, assim limitando o poder de Deus. Cremos que Deus pode dar ao homem uma mente sadia, II Timóteo 1:7, fazendo-o disposto no dia do Seu poder. A este ponto devemos enfrentar duas proposições auto-evidentes. Primeira: se Deus está tentando salvar cada membro da raça caída de Adão, e não Se sai bem, então Seu poder é limitado e Ele não é o Senhor Deus Todo-Poderoso. Segunda: se Ele não está tentando salvar cada membro da raça caída, então Sua misericórdia é limitada. Necessariamente teremos que limitar Sua misericórdia ou Seu poder, ou ir de malas e bagagens para a posição Universalista. Mas, antes de fazermos isto, vamos "à lei e ao testemunho" que diz: "Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia…..Logo pois compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer", Romanos 9:15-18. É necessário dizer, para o conforto e esperança de grandes pecadores, que a misericórdia de Deus não é limitada pela condição natural do pecador. Todos os pecadores estão mortos, até que Deus os faça vivos. Ele pode tirar o coração de pedra. Nenhum homem é tão grande pecador que não possa ser salvo. Podemos orar pela salvação do maior dos pecadores com a certeza de que Deus o salvará, se for Sua vontade. "Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina", Provérbios 21:1. Regozijamo-nos ao dizer como Jeremias que não há nada muito difícil para Deus. Podemos orar pela salvação de nossos entes queridos, com o sentimento do leproso, quando disse: "Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo". Mateus 8:2. Quando Robert Morrison estava quase para ir para a China, um americano incrédulo perguntou-lhe se achava que iria causar alguma impressão nos chineses. A resposta de Morrisson foi: "Não. Mas creio que Deus pode". Esta deve ser nossa confiança e esperança, quando estivermos diante dos pecadores, pregando para eles "CRISTO CRUCIFICADO".

2. OUTRA OBJEÇÃO A ELEIÇÃO É QUE ELA TORNA DEUS INJUSTO.

Esta objeção trai um coração mau. Ela faria o CRIADOR ter obrigação para com a CRIATURA. Ela faz da salvação uma obrigação divina. Ela nega o direito do oleiro sobre o barro da mesma massa, de fazer um vaso para honra e outro para desonra. Pela mesma igualdade de raciocínio, ela faz o governador de um estado soberano, injusto ao perdoar um ou mais homens, a menos que esvazie a prisão e solte todos os prisioneiros. Nesse ponto de vista a eleição está em harmonia com o que até mesmo os arminianos dizem ser próprio e justo para um governador humano. Todos podem ver que um governador, ao perdoar alguns homens não prejudica os outros que não são perdoados. Os que não são perdoados não estão na prisão porque o governador recusou-se a perdoá-los, mas porque eram culpados de um crime contra o estado. Será que Deus não merece tanta soberania quanto o governador de um estado? A salvação, como o perdão, é algo não merecido. Se fosse merecido, então Deus seria injusto, se não a desse a todos os homens.

A salvação não é um assunto de justiça, mas de misericórdia. Não foi o atributo de justiça que levou Deus a providenciar a salvação, mas o atributo da misericórdia. A justiça é simplesmente cada homem receber o que merece. Os que vão para o inferno não vão culpar ninguém, a não ser eles mesmos, enquanto que os que vão para o céu não vão louvar ninguém a não ser a Deus. Leia Romanos 9:22-23.

3. OUTRA VEZ OBJETA-SE QUE NOSSO PONTO DE VISTA DA ELEIÇÃO É CONTRA A DOUTRINA DO "QUEM QUISER".

Mas o objetor está errado outra vez. Nosso ponto de vista explica e apoia a doutrina do "QUEM QUISER". Sem eleição, o convite a "QUEM QUISER" seria desconsiderado. A doutrina bíblica do "QUEM QUISER" não implica na liberdade nem na habilidade da vontade humana de fazer o bem. A vontade humana é livre, mas esta liberdade está dentro dos limites da natureza humana caída. Ela é livre como a água: a água é livre para descer pela montanha. É livre como o urubu: ele é livre para comer carniça, porque esta é sua natureza. Mas o urubu morreria de fome num campo de trigo. Não é a natureza dele comer o que é limpo; ele se alimenta de carniça, do que está morto. Assim também os pecadores morrem de fome na presença do pão da vida. Nosso Senhor disse: "E não quereis vir a mim para terdes vida", João 5:40. Não é natural para um pecador confiar em Cristo. A salvação através da confiança num Cristo crucificado é uma pedra de tropeço para o judeu e loucura para o grego. Só os chamados, tanto judeus como gregos, é que confiam nela como a sabedoria e poder de Deus. Veja I Coríntios 1:23-24.

Eis aqui uma pessoa morta fisicamente. Ela é livre para se levantar e andar? Num sentido é, pois não está amarrada com correntes! Não há nenhum impedimento externo. Mas noutro sentido, este defunto não é livre. Ele está impedido por sua condição natural. É sua natureza decompor-se e voltar ao pó. Não é natureza da morte o movimenta-se. Eis aqui um morto espiritualmente - um homem morto em ofensas e pecados. Este homem está livre para se arrepender, crer e fazer boas obras? Num sentido, sim. Não há impedimentos externos. Deus não evita, mas oferece motivos através de Sua Santa Palavra. Mas o morto é impedido por sua própria natureza. É necessário haver o milagre do novo nascimento, pois a não ser que o homem nasça de cima, ele não pode ver, nem entrar no reino de Deus, João 3:3-5.

É doloroso para alguns de nós ver nossos irmãos deixarem a fé de nossos antepassados batistas nesse ponto, e se juntarem às fileiras dos católicos romanos e arminianos. Se alguém duvidar desta acusação, faça com que leia o artigo de fé adotado pelos católicos no concílio de Trento (1563). Cito a afirmação sobre a liberdade da vontade humana: "Se alguém afirmar que desde a queda de Adão a liberdade do homem está perdida, que seja maldito!" Mas que pena! Nestes dias, tal espírito não está confinado apenas aos católicos romanos. Horácio Conar faz a seguinte citação de João Calvino: "Os teólogos papistas têm uma distinção geral entre eles, que Deus não elege os homens de acordo com as obras que estão neles, mas que escolhe aqueles que prevê que serão crentes".

O problema real com o objetor não é a eleição; mas é algo mais. Sua objeção real é a depravação total do homem ou incapacidade de fazer o bem. O que posso fazer de melhor aqui é citar Percy W. Heward, de Londres, Inglaterra. Ele diz: "Parece-me que a maioria das objeções à graça soberana de Deus, ao amor eletivo de Deus, são realmente objeções a algo mais, a saber objeções ao fato de que o homem está arruinado. Se sondarmos a superfície, iremos descobrir que há pouca objeção à eleição. Por que deveriam objetar? A eleição não prejudica ninguém. Como pode a escolha de um homem condenado ferir alguém? A objeção real nestes dias não é à eleição, apesar da palavra dar a deixa da triste controvérsia - a objeção real é ao fato que está revelado no Salmo 51, que diz que somos formados na iniqüidade, que nascemos pecadores por natureza, mortos em pecados até que, como lemos referindo-se a Paulo em Gálatas I: "Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim" Ah! queridos amigos, não merecemos nada, a não ser a condenação. Reconheça isto e a eleição é a única esperança. Reconheça que somos pobres pecadores perdidos, mortos em ofensas e pecados, só maus continuamente; reconheça que não há no homem nenhuma faísca natural a ser transformada em chama, mas que os crentes nascem novamente da semente incorruptível que o Senhor coloca; reconheça que se alguém está em Cristo há uma nova criação, porque somos feitura Sua, tendo sido criados em Jesus Cristo, e a eleição será reconhecida imediatamente".

Cada crente verdadeiro, em seus joelhos, assina nosso ponto de vista da eleição. Você não pode orar atribuindo algum crédito a si mesmo. A graça soberana será revelada em oração, mesmo que não seja pregada no púlpito. Nenhum salvo vai se ajoelhar diante de Deus dizendo que é diferente dos não salvos, mas como Paulo ele dirá: "Pela graça de Deus sou o que sou". E ao orar pelos perdidos suplicamos que Deus os convença e converta. Não dependemos da liberdade deles, mas imploramos a Deus para fazer com que sintam a vontade de vir a Cristo, sabendo que quando vierem, Ele não os lançará fora. Veja João 6:37.

Um ministro metodista uma vez foi ouvir um ministro presbiteriano pregar. Após o sermão, o metodista disse ao presbiteriano: "Foi um ótimo sermão arminiano o que pregou hoje". "Foi mesmo", replicou o presbiteriano. "Nós presbiterianos somos ótimos arminianos quando pregamos e vocês, metodistas, são ótimos Calvinistas quando oram". HÁ MAIS VERDADE DO QUE POESIA AQUI!

4. OBJETA-SE TAMBÉM QUE NOSSO PONTO DE VISTA DA ELEIÇÃO É UMA NOVA DOUTRINA ENTRE OS BATISTAS MISSIONÁRIOS.

O fato é que ela é tão antiquada que quase saiu da moda. A ignorância que se vê em tal afirmação é sem dúvida digna de pena. Para refutá-la, recorremos a duas fontes de informação: (1) Confissões de fé e (2) Afirmações de pastores representantes e escritores.

(a) CONFISSÕES DE FÉ

Os paterinos, de acordo com W. A. Jarrel, recorreram ao texto no capítulo 9 de Romanos, como prova das doutrinas da ELEIÇÃO INCONDICIONAL. Veja o livro da história de Jarrel. Os paterinos foram antigos progenitores dos batistas.

Os valdenses, pelos quais a sucessão da igreja batista deve ser traçada, declararam-se como se segue: "Deus salva da condenação e corrupção aqueles a quem Ele escolheu desde a fundação do mundo, não por uma disposição qualquer, nem fé, nem santidade que previu neles, mas por Sua simples misericórdia em Jesus Cristo, Seu Filho, deixando todos os outros de acordo com a razão irrepreensível de Sua própria livre vontade e justiça". A DATA DESTA CONFISSÃO É 1120.

As confissões de Londres (1689) e a de Filadélfia (1742) dizem o seguinte: "Pelo decreto de Deus, para manifestação de Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados ou ordenados a VIDA ETERNA, através de Jesus Cristo, para o louvor de Sua graça gloriosa; outros sendo deixados para agirem em seus pecados para sua justa condenação, para o louvor de Sua justiça gloriosa".

A confissão de New Hampshire (Artigo 9) diz: "Cremos que a eleição é o propósito eterno de Deus, segundo o qual Ele regenera graciosamente, santifica e salva pecadores que, sendo perfeitamente consistente com a livre ação do homem, ela compreende todos os meios em conexão com o fim; que é a manifestação mais gloriosa da bondade soberana de Deus, sendo infinitamente gratuita, sábia, santa e imutável; que exclui completamente a vanglória e promove a humildade, o amor, a oração, o louvor, a confiança em Deus e imitação ativa de Sua misericórdia gratuita; que encoraja o uso dos meios no mais alto grau; que pode ser verificada por seus efeitos em todos os que crêem verdadeiramente no Evangelho; que é a base da segurança cristã e que para verificá-la com respeito a nós mesmos, exige e merece a máxima diligência".

(b) PASTORES REPRESENTANTES E ESCRITORES!

John A. Broadus, antigo presidente do Seminário Teológico Batista da Convenção: "Do lado divino vemos que as Escrituras ensinam uma eleição eterna de homens para a vida eterna, simplesmente vinda da boa vontade de Deus".

A. H. Strong, antigo presidente do Seminário Teológico de Rochester: "A Eleição é o ato eterno de Deus, pelo qual em Sua vontade soberana, e não por causa de nenhum mérito previsto neles, Deus escolhe certo número de pecadores para serem recipientes da graça especial do Seu Espírito e assim serem feitos participantes voluntários da salvação de Cristo".

B. H. Carrol, fundador e 1º presidente do Seminário Batista Sudoeste da Convenção: "Cada um que Deus escolheu em Cristo é atraído pelo Espírito a Cristo. Cada um predestinado é chamado pelo Espírito em tempo, justificado em tempo e será glorificado quando o Senhor vier", Comentários em Romanos.

J. P. Boyce, fundador e 1º presidente do Seminário Teológico Batista da Convenção: "Deus por Seu próprio propósito, desde a eternidade, determinou salvar um número definido da raça humana como indivíduos, não por causa de nenhum mérito nem obras deles, nem de qualquer valor deles para Deus, mas por Sua própria boa vontade".

W. T. Connor, professor de Teologia do Seminário Batista da Convenção, em Fort Worth, Texas: "A doutrina da eleição significa que Deus salva em continuação a um propósito eterno. Isto inclui todas as influências do Evangelho, trabalho do Espírito Santo e assim por diante, que leva o homem a se arrepender dos seus pecados e aceitar Cristo. Acerca da liberdade do homem, a doutrina da eleição não significa que Deus decreta salvar um homem independente de sua vontade. Pelo contrário, significa que Deus propõe guiar um homem de tal maneira que ele livremente aceitará o Evangelho e será salvo".

Pastor J. W. Lee, de Batesville, Miss: "Creio que Deus decretou antes da fundação do mundo, que salvaria certos indivíduos e que estabeleceria todos os meios para efetuar a salvação deles, em Seus termos. Os homens e mulheres não são eleitos porque se arrependem e crêem, mas se arrependem e crêem, porque são eleitos".

A lista acima de batistas bem conhecidos e honrados podemos acrescentar citações de Gill, Gulier, Spurgeon, Bunyan, Pendleton, Mullins, Dargan, Jeter, Eaton, Graves e outros numerosos demais para mencionar. É uma triste verdade que muitos de nossos pastores mantenham eleição como uma opinião particular e nunca a preguem. Pessoalmente conhecemos um número de irmãos que dizem que a eleição é ensinada claramente na Bíblia, mas que não podemos agüentar pregá-la, porque trará problemas às Igrejas. Isto é pior do que se comprometer; é a rendição da verdade. É um espírito que leva os pastores a desagradarem a Deus, a fim de agradarem aos homens. O escritor crê que o silêncio sobre este assunto tem feito mais mal do que uma oposição aberta a ele. Aqueles que se opõem abertamente à eleição, cedo ou tarde, vão se fazer ridículos aos olhos de todos os batistas que amam a Bíblia.

5. OBJETA-SE ALÉM DISSO QUE NOSSO PONTO DE VISTA DA ELEIÇÃO TORNA OS HOMENS DESCUIDADOS DE SUA VIDA.

Diz-se que a crença na doutrina leva os homens a dizer: "Se sou eleito, serei salvo; se não sou eleito, ficarei perdido, portanto não importa o que creio nem o que faço". A mesma objeção tem sido feita persistentemente contra a doutrina da preservação dos santos. Este é um raciocínio ousado. É colocar a razão humana contra a revelação divina. Ela não dá importância à operação da graça de Deus no coração humano. Se os batistas abandonam a eleição em tal plano, para serem consistentes, terão que abandonar a doutrina da preservação no mesmo plano. A eleição não significa que o eleito será salvo quer creia quer não, nem significa que o não-eleito ficará perdido, sem consideração do quanto possa arrepender-se e crer. O eleito será salvo pelo arrependimento e fé, e os dois são dons de Deus, como já mostramos antes; o não eleito não se arrepende nem crê.

A objeção que estamos considerando agora é simplesmente não verdadeira ao fato real.

Os que crêem na eleição estiveram e ainda estão entre os mais santos. Agustus Toplady desafiou o mundo a produzir um mártir dentre os que negam a eleição. Os puritanos, que foram chamados assim por causa da grande pureza de suas vidas, com poucas exceções (se houver), criam na eleição pessoal, eterna e incondicional, e naturalmente, na segurança de crente. O modernismo, fruto do inferno, está rapidamente aumentando o número de seus aderentes, mas estão vindo das fileiras do Arminianismo. Outros já desafiaram o mundo a achar um só arminiano, ou um só espiritualista, ou um só russelita, ou um só cientista cristão que creia na soberania absoluta de Deus e na doutrina da eleição Sem uma exceção estes horríveis hereges são arminianos. Este é um fato significativo que não deve ser considerado por nós como sem importância.

6. OS OBJETORES DECLARAM QUE NOSSO PONTO DE VISTA DA ELEIÇÃO DESTRÓI O ESPÍRITO DE MISSÕES.

Eles afirmam corajosamente que se a eleição incondicional deve encontrar aceitação universal entre nós, que devemos deixar de ser um povo missionário. Há uma quantidade enorme de evidências históricas com as quais refutamos esta afirmação. Abaixo de Deus, o pai das missões modernas foi William Carey, um calvinista sincero. Andrew Fuller, 1º secretário da sociedade que mandou Carey à Índia, agarrava-se tenazmente ao nosso ponto de vista da eleição. Isto não destruiu o espírito missionário destes homens. "A prova de que o pudim está gostoso é comê-lo" A crença na eleição não destruiu o espírito missionário em Judson, Spurgeon, Boyce, Eaton, Graves, Carrol e uma hoste de outros lideres batistas. A igreja Murray, a qual o Dr. J. F. Love chamou a maior igreja missionária na terra, ouviu sermões sobre eleição por Boyce Taylor durante quase quarenta anos. As maiores igrejas missionárias entre nós hoje são aquelas que foram purificadas das heresias de James Arminius.

A eleição é a própria base da esperança no esforço missionário. Se tivermos de depender da disposição natural ou vontade de um pecador morto, que odeia a Deus, para responder ao Evangelho, podemos nos desesperar. Mas quando notamos que é o Espírito que vivifica, vamos adiante com o Evangelho da graça de Deus, esperando que Ele faça alguns, pela natureza distantes, a se voltarem para Ele, crendo na salvação da alma. A eleição não determina a extensão das missões, mas o resultado delas. Devemos pregar a toda criatura, por que Deus ordenou, e porque Lhe agrada salvar pecadores pela loucura da pregação. Cremos mais em eleição do que os batistas que no crêem em missões. Cremos que Deus elegeu meios da salvação, tão bem como pessoas para a salvação. Ele não escolheu salvar pecadores à parte do ministério do Evangelho, Romanos 1:16.

A eleição dá firmeza ao Evangelismo, o qual é grandemente necessário hoje. Ela reconhece que os pecadores "criam pela graça", Atos 18:27, e que mesmo que Paulo possa plantar e Apolo regar, mas é Deus quem dá o crescimento. O Arminianismo tem tido seu dia entre os batistas e o que tem feito? Tem dado a nós o poder humano, mas tira de nós o poder de Deus. Tem aumentado o maquinismo, mas diminuído a espiritualidade. Tem enchido nossas igrejas de "Ismaéis", em vez de "Isaques" por seu ministério de "orgulho" e com o método de "quantidade e não qualidade".

Se precisar de apoio adicional na Escritura, leia os seguintes versículos: Salmos 65:4, Atos 13:48, João 6:37, 6:44-45, 17:1-2, Mateus 11:25-26, II Coríntios 12:3, 10:4.

PARTE II

INTRODUÇÃO

A segunda parte desse livro sobre a doutrina bíblica da eleição consiste na correspondência entre D. Marjorie Bond (viúva) (agora Sra. Milton Moorhouse) e o Dr. Cole. As cartas são auto-explanatórias. Escrevi à sra. Moorhouse e ela graciosamente deu-me permissão para usar as cartas neste livro. Já que os pensamentos de D. Marjorie correm pelos mesmos canais que o resto das pessoas, quanto a questão da doutrina da eleição, decidi deixá-los exatamente como foram escritos na correspondência entre eles. Tirei algumas partes que não pertencem a esta doutrina e deixei o resto, para que ficasse instrutivo e interessante.

O Dr. Cole está agora com o Senhor. Antes de partir desta vida, ele me mandou este material para ver se poderia ser impresso. Creio que este livro será uma grande ajuda para aqueles que, honestamente, estão desejando conhecer o ensino verdadeiro desta doutrina. Deus abençoou ricamente o Irmão Cole, para, que ele pudesse juntar seus pensamentos numa linguagem fácil de ser entendida. É nosso privilégio poder imprimir os escritos do Dr. Cole.

As pessoas que lerem este livro, nossa oração é que possam ver a grandeza de nosso Senhor, e possam ver como Tiago declarou em Ato 15:18: "Que são conhecidas desde toda a eternidade". Também como Paulo disse em Efésios 1:11: "Conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade". Nosso coração fica feliz e se regozija pelo fato de Deus me ter escolhido para a salvação. Se não fosse pela doutrina da eleição os batistas teriam usado meios mundanos para me trazer a Cristo. Mas os batistas, em todos os séculos, têm sido missionários, sabendo todo o tempo que todos são responsáveis para vir a Jesus quando o Evangelho é pregado, e ainda sabendo que só os eleitos de Deus serão salvos (João 6:37). Jesus disse em João 10:27: "Minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem". A doutrina da eleição fará de nós missionários, porque sabemos que nossa pregação não será em vão no Senhor, mas prosperará naquilo em que foi enviada. Paulo disse: "Portanto tudo sofro por amor dos escolhidos;" II Timóteo 2:10.

Que o Senhor abençoe este livro e faça com que muitos, daqui por diante, possam entender esta doutrina gloriosa e ver que nossa salvação do principio ao fim, é do Senhor, e que todos que O conhecem, louvem-no por Sua misericórdia abundante mostrada a Seu povo.

26 de Junho de 1968

Alfred M. Gormley, Pastor da Igreja Batista de Bryan Station; Lexington, Kentucky EUA

A CORRESPONDÊNCIA ENTRE DR. COLE E MAJORIE BOND II PARTE

Ao Dr. C. D. Cole 1505 Scotland Street

746 W. Noel - Route 2 Calgary, Alberta, Canadá

Madisonville - Kentucky 5 de outubro de 1959

Caro Dr. Cole

Apesar de ser uma completa estranha para o senhor, meus pais conheceram o Dr. Shields e recebem regularmente o jornal "The Witness" Como resultado de um dos seus artigos que li há vários anos atrás, sinto que devo escrever-lhe, a fim de poder receber mais luz sobre este assunto de Eleição.

Seu artigo abriu uma linha de pensamento completamente nova para mim. Como a maioria das pessoas, não dei a ele a mínima importância (a princípio), mas fui desafiada por ele, e até mesmo fiquei muito perturbada. Desde então, tenho voltado a lê-lo várias vezes e finalmente este verão comecei a estudá-lo com ansiedade mortal! Li o que pude de Spurgeon sobre este assunto; Dr. Shields, e também pedi emprestado uma cópia da Teologia de Strong, a qual achei um tanto difícil de ler! Em tudo e por tudo tenho me tornado tão obcecada com esta doutrina, que quase não consigo pensar em outra coisa. E ainda há tanto que não entendo. Sei que "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jeremias 17:9), e talvez o meu esteja enganado, quando digo que realmente acho que as perguntas que vêm à minha mente não se opõem tanto de uma relutância em admitir a depravação total do homem, quanto o fazem em harmonizar a doutrina com outras passagens da Escritura.

Sempre pensei que eleição e predestinação fossem algo sobre o qual os presbiterianos estivessem um pouco por "fora" (desculpe minha gramática ruim!). Nunca me ocorreu que houvesse tanta evidência sobre ela nas Escrituras, nem que os batistas criam nela! Contudo, sinto que se esta doutrina for ensinada nas Escrituras, como parece que é, então devo aprender mais sobre ela e crer nela, quer goste quer não, e quer entenda completamente quer não.

Minha mente está rodando, como um esquilo numa jaula, até que fico realmente exausta. Quando chega o momento em que penso que a entendo e aceito, Satanás parece levantar novas dúvidas para me atormentar. Isto deixa a gente quase sem fôlego. Depois de ficar à beira da morte, pensar que a gente podia não ter sido eleita! Verdadeiramente, como nunca antes, posso ver que nossa salvação é toda pela graça. Sempre pensei, quando falávamos em salvação, como sendo totalmente pela graça de Deus, o que significa que Seu plano ou idéia de salvar nos era um favor imerecido, já que nada em nós merecia sequer Seu desejo de nos salvar; e também que era um dom o qual nunca poderíamos ganhar por nosso trabalho ou adquirir justiça suficiente para merecê-la. Mas é óbvio que a graça engloba muito mais do que isto. Quando a gente nota que uma pessoa nem mesmo ia querer a salvação, a não ser que fosse eleita, então vemos como somos tremendamente devedores à graça - porque é graça do começo ao fim!

Já pensei algumas vezes se as objeções que sentimos em relação à eleição são dirigidas mais com respeito à idéia da completa soberania de Deus do que em relação à depravação total. Parece ser contra a natureza humana pensar que Deus pode fazer o que Ele quer conosco e não temos nenhum poder de fazer nada sobre isto.

Até hesito em colocar em palavras algumas das objeções que vêm à minha mente, com receio de ser culpada de blasfêmia ou sacrilégio; porque sempre fui ensinada que é uma coisa muito séria criticar a Deus. E ainda, com interesse de clarear meus pensamentos sinto que devo confessar-lhe alguns dos pontos sobre eleição que estão me atribulando e que parecem contradizer outros versículos na Bíblia, e outras doutrinas.

Eu também ensino uma classe bíblica para moças e estamos estudando este assunto (receio que seja um cego guiando outro cego). Vamos ter uma noite de debates sobre eleição no dia 5 de novembro, por isso gostaria de esclarecer alguns pontos em minha própria mente antes deste dia.

Talvez a forma mais fácil para o senhor responder será eu colocar minhas perguntas em forma de pontos:

1. A maioria das pessoas sente imediatamente que a eleição é injusta. Noto, em seu panfleto, e também nas Escrituras, que Deus não deve a nós o salvar ninguém, e por isso Ele tem o direito de dar o dom da salvação a quem quiser. Mas, mesmo assim, o sentimento persiste que se uma pessoa não tem nem mesmo uma chance de aceitar ou rejeitar a salvação, ela "não tem mais chance", no modo de dizer.

Antes de estudar eleição, sempre pensava que se alguém ficasse, mesmo que remotamente interessado na salvação, então, em resposta às orações de parentes e amigos interessados, o Espirito Santo operaria no coração daquela pessoa e a traria sob convicção ao lugar onde pudesse se decidir a favor ou contra Cristo.

Mas, se só as pessoas que vão aceitar Cristo são as que foram "marcadas na orelha" para a salvação e isto de antemão, então a gente sente que o resto da raça não tem uma chance, nem mesmo a de recusar. Até que ponto elas são responsáveis por serem perdidas?

Uma moça do sul em minha classe, disse-me após a aula: "Se este ensinamento for certo, tudo parece tão sem esperança. Pensei que qualquer pessoa pudesse ser salva; que a decisão era dela. Mas se Deus já decidiu de antemão, ela não tem nenhuma chance, não importa o quanto oremos a seu favor".

Tentei mostrar que toda a raça humana estava perdida, com ou sem eleição. Que a eleição de alguns não significa que os outros sejam piores de que teriam sido sem a eleição. Mas mesmo assim - com uma parte de mim - sei como esta moça se sente, porque de vez em quando, a despeito de toda minha oração por luz, tenho o mesmo sentimento... que se a gente não é eleito,

não tem nenhuma chance! A gente sente como se toda a questão tivesse sido tirada de nossas mãos e não recebemos a mesma chance dos outros.

Compreendo todo o argumento sobre o governador da prisão também, e concordo com ele com minha cabeça! Mas meu coração continua dizendo que, apesar de ser verdade que um homem não está na prisão porque o governador não o perdoou. mas antes por causa do que fez de errado, todavia a falta de perdão o mantém lá!

Há algum versículo na Bíblia que apoie a interpretação que se não tivéssemos sido eleitos, nunca teríamos o menor interesse na salvação? Sei de Romanos 8:7,8 e também de outras passagens, que em nosso estado natural somos inimigos de Deus. Mas sempre pensei que se o Espírito Santo operasse no coração humano, por exemplo, em alguém que mostra interesse em se tornar crente, então esta pessoa tem uma chance de decidir se quer ser salva ou não. Mas, é evidente, que o Espírito Santo nem mesmo trabalha no coração de alguém que não foi eleito. Há versículos para isto?

2.. Se Deus escolhe só certas pessoas para a salvação, ou capacita só certas pessoas para se beneficiarem para a salvação, então o que a gente faz com versículos iguais a João 3:16? Pensei que Cristo tivesse morrido 'pelos pecados do mundo inteiro' (I João 2:2), não só pelos eleitos.

E o que significam versículos tais como "Não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se" e também ~ Mas Deus...anuncia agora a todos os homens e em todo lugar, que se arrependam". Se o homem não tem poder para se arrepender se não for eleito, e Deus não o elegeu, como este homem é responsável por não obedecer o mandamento de Deus para se arrepender; e, além do mais, como se pode dizer que Deus não está disposto a que nenhum pereça, se Ele não capacita todos para serem salvos?

3. Como o senhor explica o fato de que, às vezes, uma pessoa mesmo sob grande convicção decida-se contra a salvação? Ela era ou não eleita? Meu pai, que morreu em julho passado, era um grande cristão leigo e médico, o qual levou muitas almas a Cristo em seu consultório e pela pregação leiga. Ele me contou uma história que tinha lido ou um testemunho - não me lembro bem o que foi. Mas uma moça assistiu várias vezes as reuniões de uma conferência de reavivamento, noite após noite, e parecia estar profundamente tocada. Na realidade ficou claro ao pregador que ela estava sob profunda convicção. Na última noite, quando o apelo foi dado, ela saiu do seu lugar e retirou-se do edifício. Um obreiro a seguiu e ouviu-a dizer, olhando as estrelas: "Não quero ser crente. Por que não me deixa em paz. Gosto de minha vida do jeito que é, e não estou preparada para mudar meu jeito de viver. Por favor, Espírito Santo, deixe-me em paz e não me aborreça. E com uma risada de gelar os ossos ela desapareceu na noite. Esta moça foi morta num acidente poucas horas depois, se não me falha a memória.

Então, o que quero saber é isso: ela era eleita? E se não, como pôde sentir tal convicção para começar? O Espírito Santo perde tempo, no modo de falar, convencendo alguém do pecado, mas com quem Deus nem mesmo elegeu? E se era eleita, por que não atendeu o apelo? Pensei que a eleição significas se que a pessoa tinha que ir à frente, quer notasse que não. É possível que certas pessoas sejam escolhidas para a salvação, mas por sua própria vontade, a rejeitem?

4. Também, por favor, explique o versículo "muitos são chamados, mas poucos os escolhidos". Se quer dizer "muitos são chamados, mas poucos aceitam", posso entendê-lo. Mas não sei qual a diferença entre 'chamar' e 'escolher'. Para mim parecem a mesma coisa.

5. Finalmente, a despeito de todos os argumentos ao contrário, encontrei-me em meio a um tipo de atitude fatalista - e que tiver de ser, será. Talvez isto se deva mais às minhas leituras sobre a soberania de Deus, do que sobre a Eleição.

Mas pergunto a mim mesma: "Se Deus tem um plano para cada indivíduo e cada nação; se Ele ordena os poderes à existência e se põe e depõe os reis, etc.; se Ele é completamente Soberano, então Ele vai executar Sua vontade, não importa os esforços de Satanás para impedi-lo, ou a falha do homem por sua parte.

O senhor diz que porque Eleição é um assunto secreto, temos que testemunhar de qualquer maneira e deixar os resultados para Deus. Está certo. Mas, por outro lado, não posso ver o que importa sabermos ou não, já que Deus conhece quem é eleito e Ele salvará a pessoas quer façamos nossa parte ou não. Só porque deixo de testemunhar, Deus não vai ser impedi do em Seu desígnio de salvar certas pessoas. O próprio fato de Deus as ter escolhido é suficiente para assegurar que serão salvas, quer testemunhemos ou não, pela simples razão de que Deus é Soberano e já as elegeu para a salvação. Concordo que não sei quem é eleito e quem não é. Mas não preciso saber. Estas pessoas serão salvas de qualquer jeito, se esta é a vontade de Deus.

Li na Teologia de Strong que nossas orações nunca vão fazer Deus mudar de idéia. 0 princípio é que, enquanto crescemos em nossa experiência crista e vivemos mais perto de Deus, vamos aprender a orar pelas coisas que estão de acordo com Seu propósito para nós; portanto Ele pode responder nossa oração!

Mas me pergunto novamente: Se Ele tem planos para os indivíduos e nações, eles serão trazidos a Cristo sem nossas orações. Se for assim, então, o que pensamos ser resposta às nossas orações são só o cumprimento de um plano divino, que teria sido realizado muito bem sem nossa oração. Mas, como não podemos ver o futuro, pensamos que convencemos Deus e por isso dizemos que Ele nos respondeu. Mas, já que Ele planejou um certo curso para nós, isto acontecerá do mesmo jeito, de qualquer maneira. O senhor entende o que quero dizer?

Sempre pensei que, de uma certa forma, nós convencíamos Deus, contanto que não pedíssemos alguma coisa fora de Sua vontade - quero dizer com isto: Seu prazer ou vontade consentidos, em vez de um plano premeditado e fixo. Acho que pensei, por exemplo, que se um ente querido ficasse doente e o Senhor n30 tivesse uma decisão real feita de que era o tempo desta pessoa morrer, Ele pouparia a vida dela em resposta à oração. Mas, de acordo com a soberania, a razão pela qual Ele poupa é simplesmente porque ainda Deus não quer que ela morra, portanto minha oração não tinha nada a haver. A pessoa ficaria boa de qualquer jeito, se este fosse o plano decretado por Deus, ou então morreria se este fosse Seu plano.

Se a oração não faz Deus mudar de idéia, então de que adiantaria Abraão interceder por Sodoma e Gomorra? Deus teria salvo os 50, ou 40 ou 10 de qualquer jeito, se fossem encontrados. E também para que Moisés intercedeu por Israel? Deus tinha um plano para Israel e Ele o executaria, quer Moisés orasse ou não. Por que Moisés e nós oramos então, por alguma coisa que vai acontecer, quer oremos ou não?! Para mim, isto destrói o propósito total da oração, e faz com a gente quase se sinta enganada ao pensar que faz alguma coisa através da oração, quando na realidade tudo já estava decretado de antemão.

Por exemplo: no caso do orfanato de Mueller. Deus tinha um plano para que esse trabalho fosse executado, já que Ele é Soberano. Se a oração não conta nada para com Deus, quero dizer para influenciá-Lo, então aquele caminhão de leite teoria dado o prego em frente ao orfanato (suprindo assim todas aquelas crianças com o leite necessário) quer Mueller tivesse passado a noite de joelhos ou não? De acordo com os teólogos não foram as orações de Mueller que resultaram no aparente suprimento miraculoso de leite para o orfanato, mas era só parte de um plano que teria sido realizado de qualquer modo, quer Mueller tivesse passado a noite dormindo ou orando. Não compreendo isto. Para mim, tal raciocínio contradiz Tiago 5:16 e outros que ensinam a importância da oração. As vezes fico pensando se o problema não está na interpretação que os homens dão às Escrituras, em vez de ser com a própria Escritura.

Esta é uma carta terrivelmente comprida. Peco-lhe desculpas por ser tão faladeira. Mas este assunto é muito vasto, eu acho, para ser discutido por correspondência. Como desejaria poder sentar-me e conversar com o senhor!

Estou guardando uma cópia desta carta, para que possa recorrer a ela quando sua resposta chegar. Espero que o senhor não pense que estou lhe impondo alguma coisa; mas seu panfleto realmente mexeu comigo. Posso ver onde a eleição é sem duvida uma doutrina maravilhosa, se não parecesse contradizer outros versículos das Escrituras.

Espero e oro que o senhor possa me dar mais luz, e que não se sinta ofendido com uma carta tão longa de uma estranha.

Agradeço-lhe desde já, de coração, sua resposta.

Sinceramente, Marjorie Bond

D. MarJorie Bond 746 West Noel

1505 Scotland Street Madisonville, Kentucky

Calgary, Alberta, Canadá 20 de outubro de 1959

Cara senhora:

Saudações no Nome dAquele cujo Nome é sobre todo nome! Sua carta datada do dia 5 próximo passado foi recebida pontualmente. Ela não podia ter-me encontrado mais ocupado, sendo este o motivo de minha demora em responder. Sou o secretário da Associação Batista Betel e sua carta chegou bem no primeiro dia da nossa reunião anual. Havia muito trabalho para preparar para a reunião, durante os dias dela, e muito mais trabalho para colocar o material nas mãos de impressor. Pensei logo em escrever uma cartinha breve contando a situação e prometendo responder-lhe devidamente o mais depressa possível. Então ocorreu-me que podia aproveitar o tempo na esperança de resolver o assunto, antes que o tempo mencionado pela senhora se esgotasse. Acredito que a senhora não vai considerar minha demora como uma evidência de indiferença de minha parte. Além disso, devido a doenças da idade, não tenho mais capacidade para o trabalho que tanto gostava de fazer.

Primeiro de tudo, deixe-me cumprimentá-la por sua atitude honesta, com respeito à doutrina da ELEIÇÃO e assuntos relativos; e também pela sua compreensão destas doutrinas. Quase nunca recebo uma carta tão bem escrita, sobre qualquer assunto. A senhora colocou seus problemas em uma perspectiva clara, o que torna mais fácil lidar com eles. Posso responder com passivamente, porque seus problemas são também os meus. Gostaria muito de resolvê-los para a senhora, mas temo que meus esforços a desapontem.

Creio que a senhora está excessivamente perturbada por causa de sua incapacidade de harmonizar tudo o que está na Bíblia. Este Livro é a revelação do Deus Infinito, e a mente finita não pode entender com perfeição a tudo quanto Deus revelou. Poder fazer isto seria um argumento contra a Bíblia como inspirada por Deus, e reduzi-la a uma mera produção humana. Portanto, a determinação de harmonizar contradições aparentes é com certeza o resultado de uma das três coisas encontradas na vida real. Ou se quer ignorar a Soberania de Deus por um lado, ou a responsabilidade do homem por outro lado, ou também ser atormentado com uma mente perturbada como a senhora confessa sentir. De um lado encontram-se os tão chamados Batistas Primitivos (Fatalistas), que não podem conciliar a incapacidade humana com responsabilidade ao assunto de arrependimento e fé. Por isso enfatizam as doutrinas da Soberania, dos decretos divinos e incapacidade do homem, e ignoram as Escrituras que mandam que os pecadores se arrependam e creiam no Evangelho, portanto não tendo nenhum Evangelho para o perdido. Por outro lado, há os que pregam as doutrinas da responsabilidade humana e o mandamento para se arrepender e crer, mas que não têm nada a dizer sobre a incapacidade do homem, os decretos divinos e Soberania. Aqui em minha própria igreja e associação, tão bem como por todo o sul em geral, ouve-se pouco sobre Eleição, Depravação e Soberania na salvação. Isto porque os irmãos sentem que não podem pregar a ambos; que os dois são além da reconciliação - se um é verdadeiro o outro tem que ser falso. Mas em seu caso tanto há determinação em aceitar toda a Escritura, como harmonizá-la, o que resulta numa mente confusa e perturbada. Vamos, com o risco de sermos chamados inconsistentes, aceitar tudo o que está nas Escrituras, quer possamos harmonizá-lo ou não. O Dr. J. B. Moody (um dos meus pais na fé) dizia que se a gente esperasse aceitar as doutrinas, até que pudéssemos harmonizá-las, nunca as aceitaríamos. A maneira de harmonizá-las é recebê-las sem questionar, e elas se harmonizarão lá dentro, em sua alma. Talvez isto não seja exatamente verdade, mas será de muita ajuda. Não estou dizendo que não devemos nos esforçar para harmonizar o que parecem ser doutrinas contraditórias, mas sim avisá-la de não ter uma determinação persistente para fazer isto. Com esta introdução vou agora responder suas perguntas pela ordem.

1. É verdade que a maioria das pessoas (eu diria todas) sente que a eleição é injusta. Isto não é de estranhar, já que a mente carnal é inimizade contra Deus. As pessoas podem amar um deus inventado por elas, mas só os crentes nascidos de novo podem amar um Deus Soberano, que faz o que quer com os Seus. I João 4:7. Os direitos de Deus com a raça humana pecadora são os mesmos de um oleiro com o barro. Podemos ver prontamente que o criminoso não tem o direito de reclamar diante de um júri humano. E é tão justo quanto verdadeiro que o pecador não tem o que reclamar diante de um Deus ofendido. Portanto, dizer que a eleição é injusta, é colocar a salvação na base da justiça, tirando assim qualquer esperança de cada pecador.

Quando encontramos pessoas que parecem se interessar na salvação, temos a tendência de pensar que são eleitas, porque os eleitos não são salvos sem se interessarem na salvação. E quando oramos pela salvação delas, não estamos pedindo ao Espírito Santo que as coloque numa cerca onde possam cair de um lado para outro. Elas já estão do lado errado - a atitude da rejeição, por ignorância, a Cristo - e oramos para que Ele possa tirá-las do reino das trevas para o reino de Seu Filho querido, Col. 1:13. Oramos por sua conversão, pela fé em Cristo, para que não sejam deixadas à escolha de uma natureza depravada, porque Ele não convence nem converte todo mundo a quem pregamos e por quem oramos. É um direito de Sua soberania e não de Sua fraqueza. Não oramos a um Deus fraco. Contudo, devemos fazer distinção entre o desejo de ser salvo do pecado e o desejo de ser salvo do Inferno. Ninguém quer ficar queimando, mas o desejo de ser salvo do pecado é santo e criado pelo Espírito Santo. E quando Ele cria tal desejo, Seu trabalho de conversão seguirá além. Mas não podemos determinar com segurança o motivo do desejo.

A senhora pergunta até onde eles (os não eleitos) são responsáveis por serem perdidos. Eles são responsáveis por todos os pecados que cometeram e também por sua natureza pecaminosa. O que uma pessoa faz é uma revelação do que ela é Isto não é aparente ao nosso senso de justiça. Não posso ver como Deus pode justamente me fazer responsável pelo exercício de uma natureza herdada - uma natureza que nada tive a haver para adquiri-la e com a qual nasci. Se eu fosse me sentar para julgar a Deus (pereça tal pensamento) diria que não é justo punir-me por uma natureza pecaminosa que herdei. Aceito minha responsabilidade pelo pecado, mesmo que não possa entender a justiça dele. Aqueles que não têm sido "marcados na orelha" para a salvação, caem em dois grupos - os que ouviram o Evangelho pregado a eles e os que nunca ouviram falar de Cristo como Salvador. Os que já ouviram o Evangelho são responsáveis por todos os seus pecados, inclusive o de rejeitar a Cristo; os que nunca ouviram sobre Ele são livres do pecado de rejeitá-Lo, apesar de serem responsáveis por outros pecados pelos quais serão considerados culpados. Os pagãos que nunca ouviram o Evangelho não terão que responder pelo pecado da descrença. Quer entendamos isto ou não, o pecador em toda a sua depravação e incapacidade é responsável diante de Deus.

A senhora em sua classe que fez a observação de que a doutrina da eleição torna tudo sem esperança, acrescentando que pensava que todos podiam ser salvos; que a decisão era "deles", pode ser respondida assim. Pode ser salvo aquele que está disposto a ser salvo pelo caminho de Deus pela fé em Cristo, mas ninguém, por sua livre e espontânea vontade, quer ser salvo assim. O caminho de Deus é tolice para ele. I Cor. 2:14; II Cor. 4:3-6; Rom. 10:1-3. A decisão é "deles", mas a decisão de confiar em Cristo é o resultado de uma mente renovada - o resultado da graça na alma. Paulo fala do tempo quando ele pensava que devia fazer muitas coisas contra o nome de Jesus de Nazaré. Atos 26:9. E ao contar sua conversão ele a atribui à graça de Deus. I Cor. 15.10; Gál 1:14-16. Não há auto salvação, nem na providência nem na aplicação O trabalho do Espírito em nós é tão essencial como o trabalho de Cristo por nós. Paulo diz que os judeus pediam um sinal (queriam que ele fizesse um milagre), e os gregos clamavam por sabedoria (queriam que ele filosofasse), mas sem agradar a vontade de nenhum dos dois, ele pregou a Cristo crucificado A salvação pela fé no Cristo crucificado era para o judeu natural um escândalo, e para o grego uma bobagem. Mas, os eficazmente chamados pelo Espírito Santo podiam ver o poder e a Sabedoria de Deus no plano da salvação. I Cor. 1:22-31. Por que Deus não chama mais do que Ele o faz, deve-se não a incapacidade, mas a soberania. Como disse no meu artigo sobre eleição, ou limitamos o poder de Deus ou Sua misericórdia, ou passamos de malas e bagagens para o universalismo. Se Deus está tentando salvar todo mundo, mas não é bem sucedido, então Ele não é Todo-Poderoso; se Ele não está tentando salvar todo mundo Sua misericórdia não é universal. Rom. 9:18 torna claro que Sua misericórdia é limitada e é soberanamente concedida. Merecer misericórdia é uma contradição de termos. E a carne em nós - restos da depravação - se rebela a este aspecto da soberania divina. E o escritor está ciente disto, como a senhora também parece estar.

2. Há passagens como João 3 16 e I João. 2:2 que parecem ensinar que Cristo morreu por cada indivíduo. Contudo, a palavra "mundo" raramente significa cada indivíduo da raça humana. A palavra "mundo" às vezes, é usada para distinguir o salvo do perdido (I João. 5:19); o judeu do gentio (Rom. 11:11-15) e os poucos dos muitos (João 12:19). Creio que João 3:16 e I João.

2:2 ensinam que Cristo morreu tanto pelos gentios como pelos judeus. Ele morreu pelos homens como pecadores e não como qualquer classe ou tipo de pecadores. Os judeus pensavam que seu Messias, quando viesse, os livraria e destruiria os gentios. Mas João diz que Ele é a propiciação para todos os crentes, independente de classe ou cor. Em outras palavras: Cristo não é um salvador de uma tribo. Se pensarmos na morte de Cristo como substituta, então concordo com Spurgeon, que Ele morreu só pelos eleitos. Se Ele morreu como substituto por cada indivíduo, então cada indivíduo deve ser salvo, ou então Sua morte foi em vão. Mas creio que há um sentido no qual a morte de Cristo afeta cada pessoa. Por sua morte Ele comprou a raça humana, não para salvar cada indivíduo, mas a fim de dispor de cada indivíduo. 0 direito de julgar este mundo é a recompensa de Cristo por Seu sofrimento. Todo juízo foi confiado ao Filho. João. 5:22. Na parábola do tesouro escondido, Cristo é o homem que comprou o campo (mundo) por causa do tesouro (o eleito); por causa daqueles dados pelo Pai. Mat. 13:44. Veja também João 17 e Pedro 2:11. Casualmente a palavra para Senhor em II Pe. 2:1 é Déspota (do grego "despotes"), e indica mais autoridade do que Kurios (Senhor).

Em II Pe. 3:9, o apóstolo está explicando porque o Senhor ainda não voltou à esta terra, e a razão é, que Ele não quer que nenhuma alma pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. Isto se refere à Sua vontade de propósito. É o propósito de Deus que todos se arrependam e sejam salvos. Com longanimidade Ele espera até que todos os escolhidos sejam trazidos ao arrependimento. Os escolhidos são descritos como aqueles que obtiveram a tão preciosa fé (1:2) que receberam todas as coisas que pertencem à vida e à santidade (1:3); e escaparam da corrupção que está no mundo (1:4)~ Em Pe. 3:15 o apóstolo diz aos mesmos "para conosco", que eles devem considerar a grande benignidade do Senhor como salvação. A benignidade de Cristo para com os eleitos 0 mantém em Seu trono mediatório, até que todos sejam salvos. Se Ele viesse mais cedo que o planejado, muitos dos eleitos não seriam salvos. Sou crente há 51 anos, e se Ele tivesse vindo antes da minha conversão, eu teria perecido em meus pecados. Não é Sua vontade de propósito que nenhum dos que o Pai Lhe deu pereça. As palavras "todo" e "cada" dificilmente são usadas no sentido absoluto. Veja Mat. 3:5-7; I Cor. 4:5. O "todos" de II Pe. 3:9 são todos os "para conosco" que serão trazidos ao arrependimento. Esta não é uma gramática boa, mas é uma ótima teologia, necessária à clareza. Cristo não virá para julgar, até que todos que o Pai Lhe deu se arrependam. E quando Ele vier introduzirá a nova era do "novo céu e nova terra". onde habita a justiça.

3. A história que seu pai contou já aconteceu em muitos casos com pessoas que pareciam estar sob profunda convicção, mas ainda se opõem aos que tentam guiá-las a Cristo. Tal convicção não é de Espírito Santo, que convence do pecado da descrença e guia à fé em Cristo. Tais casos revelam o fato da inimizade da mente carnal para com Deus, e não uma mente tocada pelo Espírito Santo. Um caso a citar é o de Félix que tremeu ao ouvir Paulo pregar, e então o despediu até uma época mais conveniente. Atos 24:25.

Há uma convicção natural do pecado que pode ser sentida por todo mundo, quando confrontado por seus pecados (João. 8:9), e há a convicção evangélica pelo Espirito Santo, que leva ao arrependimento e fé. Deus nunca abandona a boa obra que Ele começa na alma. Fil. 1:6. 0 Espírito Santo, nunca tenta regenerar um dos não eleitos. Há muitos versículos na Bíblia para isto. 0 Novo Testamento fala freqüentemente daqueles dados ao Filho pelo Pai, e a salvação deles é assegurada. Eles são chamados "ovelhas" e "eleitos" antes mesmo de virem a Cristo. João. 6:37-44; 10:14-16; 25-28; II Tim. 2:10.

Você perguntou se aquela moça era eleita" ou não. Não sei. Só posso dizer que naquele momento ela não deu nenhuma evidência de ser eleita. Contudo, mais tarde, ela pode ter sido convencida pelo Espirito Santo do pecado da descrença e ter chegado ao arrependimento. Só podemos julgar se uma pessoa é eleita ou não por sua atitude para com o Evangelho de Cristo. Se ela era uma ovelha de Cristo, ela veio a Ele em outro dia, mais tarde, pois Cristo diz: "Minhas ovelhas ouvem minha voz, eu as conheço e elas me seguem".

4. "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos". (Mat. 20:16; 22:14). "Chamar" no Novo Testamento geralmente significa a chamada eficaz para a salvação os Santos são feitos por uma chamada divina, mas este não é o significado das passagens acima. Significa obviamente que muitos que ouvem o convite para aceitar Cristo não foram escolhidos por Deus para a salvação. I Tess. 1:4-7; II Tess. 2:13. Chamar e escolher não são a mesma coisa. Escolher ou eleger aconteceu na eternidade passada; chamar acontece no tempo e produz conversão à fé em Cristo. Há uma chamada geral dada a cada pecador na pregação do Evangelho, e há a chamada especial do Espirito Santo, a qual induz a aceitação da chamada geral. A chamada geral na pregação do Evangelho é para os homens como pecadores; a chamada especial pelo Espírito Santo é para o eleito e resulta em salvação. Rom. 8:28 se refere a esta chamada eficaz. Veja também I Cor. 1 :26; Gal. 1: 15-16.

5. A senhora se queixa de estar "presa a um tipo de atitude fatalista - "o que tiver de ser, será". Há uma diferença enorme entre uma coisa fria e impessoal chamada "destino", e as obras providenciais de um Deus grande e sábio. As coisas não acontecem friamente pelo destino, mas por Deus "que faz todas as coisa, segundo o conselho da sua vontade". (Efésios 1:11) . Perguntaram uma vez ao Dr. Charles Hordgesse se ele cria que o que há de ser será. Ele respondeu: "E claro que sim. Você quer que creia que o que há de ser, não será?" A profecia é a predição divina de muitas coisas que vão acontecer e estas predições já aconteceram ou ainda vão acontecer.

0 segundo parágrafo de sua carta sobre este assunto expressa uma vontade gloriosa. Deus está regendo este mundo, fazendo até que a ira do homem 0 louve; o resto do que a ira do homem pode fazer, Ele reprime. Salmos 76:10; Prov. 21:1.

Referindo-me ao terceiro parágrafo de sua carta, na página 33, é verdade que o eleito será salvo, e que minha falha em testemunhar não vai afetar o propósito de Deus de salvá-lo. Deus me usa, mas Ele não depende de mim. Não me atrevo a pensar que Deus seja um inútil sem mim; se eu falhar Ele pode usar outra coisa. Não devo testemunhar por causa de qualquer resultado assegurado, mas em obediência à Sua ordem de comando. Não posso saber Seu propósito em relação às pessoas as quais vou testemunhar. Temos que testemunhar às pessoas como pecadoras e não como a pecadores eleitos. A eleição não tem nada a haver com nossa obrigação de testemunhar. Isaías pregou, mesmo sabendo que não haveria nenhum resultado por parte do povo. Is. 6:8-13.

Sua carta termina com perguntas feitas em relação à oração. Não tenho esperança de ser de muita ajuda aqui, mas vou fazer algumas observações. A oração é um dos meios pelos quais Deus faz o que Ele decretou. A oração respondida é redigida pelo Espírito Santo. Ele conhece a mente e a vontade (propósito) de Deus, e faz intercessão por nós, de acordo com a vontade de Deus. Rom. 8:26-27. Como alguém pode saber que sua oração é redigida pelo Espírito Santo, não posso dizer. Mas o Espirito Santo nos guia a orar por aquilo que está dentro do círculo da vontade divina, e se pedimos uma coisa de acordo com Sua vontade Ele nos ouve. I João. 5:14. Já aprendemos que devemos orar, para que a vontade de Deus seja feita. Isto mostra que não estamos tentando mudar Sua vontade com nossa oração. Isto tomaria o controle de Suas maos e nos colocaria na liderança.

Quer possamos harmonizar nossa oração com Seus decretos ou não é nossa responsabilidade orar porque Ele manda isto. Lucas 18:1. A oração implica em duas coisas: nossa incapacidade é Sua capacidade. A oração é um ato de dependência em Deus que "é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos". (Efés. 3:20).

Presumo que não posso conciliar a doutrina dos decretos divinos com tais passagens como Tiago 4:2,3 e 5:16. Mas posso ver como a oração pode prevalecer sem mudar a Deus, quando penso nela como um dos meios pelos quais Sua vontade de propósito é afetada. No caso de Mueller, acho que ele foi guiado pelo Espírito Santo para passar a noite de joelhos, como o meio de conseguir o leite para as crianças. Temos a mesma dificuldade no caso do naufrágio do navio de Paulo, o qual está registrado em Atos 27. Quando toda a esperança de salvação tinha desaparecido (27:20) o anjo de Deus disse a Pedro que nenhuma vida se perderia. Ele então conforta os marinheiros desesperados, soldados e prisioneiros, dizendo: "Tende bom animo, porque creio em Deus, que há de acontecer assim como a mim me foi dito" (27:25). Depois, quando os marinheiros estavam quase para abandonar o navio, Paulo disse ao centurião e aos soldados: "Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos" (27:31). Deus havia declarado que nenhuma vida se perderia, e Paulo creu nEle, mas ao mesmo tempo cria que a segurança de todos dependia em que os marinheiros ficassem no navio. Podemos acusar Paulo de inconstância, mas está escrito!

Quanto a orar pelos doentes, devemos sempre orar sem saber qual seja a vontade de Deus em cada caso em particular. Está ordenados aos homens morrerem uma vez, e quando esta hora chegar, nossa oração não vai cancelar a vontade divina. Davi reconheceu isto ao orar por seu filho doente. Ele jejuou e orou, enquanto a criança estava viva, mas quando ela morreu, ele curvou-se à vontade manifesta de Deus e disse "Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim e viva a criança?" (II Sam. 12:22). A oração de Paulo para que o espinho fosse removido é outro caso de pedir por uma coisa fora do círculo da vontade de propósito de Deus Paulo orou sem saber a vontade de Deus, e quando soube, que a graça suportava seria dada em vez da retirada do espinho, ele curvou-se numa doce submissão e disse: "De boa vontade pois me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo" (II Cor. 12:9).

Minha mente sempre se volta para a terrível guerra entre nosso Norte e Sul - a tão chamada "Guerra Civil". Havia homens de Deus em ambos os lados - homens de piedade e oração - que imploravam à Deus pela vitória. Creio que se afirma que os homens de Deus mais notáveis pertenciam ao Exército do Sul - tais como: Robert E. Lee, Stonewall Jackson e Robert E. Johnston. E agora todos nós exaltamos que tenha sido da vontade de Deus, que a União fosse salva.

É próprio para todos nós procurarmos a face do Pai e orar por suas bênçãos, e então curvar-nos em acordo à Sua providência misteriosa em nossas vidas.

"Deus tem a chave do desconhecido, e eu sou feliz;

Se outras mãos a segurassem,

Ou se Ele a confiasse a mim,

Podia ficar infeliz'!

"E se os cuidados do amanha estivessem aqui

Sem descanso!

Prefiro que ele abra o dia;

E quando as horas vibrarem, dizer:

'Minha vontade é melhor'.

"Até a escuridão de minha vista

Dá-me segurança;

Porque tateando em meu caminho escuro;

Sinto Sua mão; e O ouço dizer:

'Minha ajuda é certa'.

"Não posso ler Seus futuros planos;

Mas uma coisa eu sei;

Tenho o sorriso de Sua face,

E todo o refúgio de Sua graça,

Enquanto estiver aqui.

"Basta! Isto cobre tudo o que quero,

Por isso descanso!

Porque onde não vejo, Ele vê,

E sob Seus cuidados estarei seguro,

E abençoado para sempre".

(Tradução Livre)

Todos nós somos pobres pecadores precisando de um Salvador capaz. Este Salvador é o Senhor Jesus Cristo que diz: "E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" (João. 6: 37). Se Cristo é o Salvador dos pecadores, este pobre pecador pode se qualificar para a salvação. Eu O louvo por morrer por mim, e louvo o Espirito Santo por me fazer notar minha incapacidade e por tirar as coisas de Cristo e manifestá-las a mim, João. 16:14,15.

Que o Senhor a abençoe no debate do próximo dia 5 de novembro, e a faça uma bênção para os outros. Desejaria ter sido mais útil nas respostas às suas perguntas Deixe-me exortá-la a não se preocupar com a falha de poder conciliar doutrinas que parecem ser contraditórias às nossas mentes finitas.

Com sinceros agradecimentos por esta oportunidade de discutir com a senhora algumas das coisas profundas de Deus.

Sou seu, pelos laços do Evangelho,

C. D. Cole

1505 Scotland Street, Calgary, Alberta, Canadá

6 de novembro de 1959

Caro Dr. Cole:

O senhor acha que pode agüentar outra carta minha? Vou tentar não escrever muito desta vez!

Sua carta maravilhosa, e mais do que útil, chegou faz duas semanas; então pode ver que com bastante tempo para nossa reunião de ontem à noite. Tive vontade de responder na mesma hora; mas resolvi esperar até depois da reunião para que pudesse 'matar dois coelhos com uma cajadada" - como se diz. Obrigada por sua carta e pela reunião também.

Não posso dizer-lhe o quanto apreciei o tempo e problema que teve para ajudar a uma completa estranha - e ainda, talvez, não sejamos estranhos afinal de contas, já que somos parentes através do Evangelho. Mas o senhor trabalhou muito, eu acho, para responder aquela carta tão comprida e com tantos detalhes. Muitíssimo obrigada. Acima de tudo devo-lhe minha eterna gratidão pelo seu artigo sobre Eleição, o qual despertou meu interesse e subseqüente estudo. Sinto como se um novo mundo se tivesse aberto para mim; não pode imaginar como me sinto, Dr. Cole. Espero que não seja errado dar tanta importância a este assunto, mas de qualquer modo sinto como se fosse a doutrina mais significaste e pessoal na Bíblia inteira. Sei que nada pode ofuscar o sacrifício expiatório de Cristo, mas sinto que até mesmo minha conversão, nunca fez tanta impressão em mim quanto a Eleição. Quando a gente é cria da num lar cristão, ouvindo as Escrituras desde pequena e sendo ativa na Igreja, não há uma distinção marcante, como a que acontece com alguém que se torna crente depois de uma vida de vícios. É por isso que não sentimos, no mais profundo do nosso ser, que não precisamos tanto de Cristo, como estas outras pessoas?

Não sei, mas muitas vezes sentia que não tinha a alegria que devia ter em minha vida crista. As vezes ela parecia antiga e formal; parecia que eu fazia as coisas para o Senhor como se por obrigação. As vezes até ficava duvidando se era salva ou não. Agora tudo mudou. O próprio fato de que minha salvação é toda pela graça - tanto na aplicação quanto na provisão - transformou tudo para mim. E tenho que agradecer ao senhor por isto. Como deve ser maravilhoso ser um pastor, para ser usado assim por Deus!

Quando li seu panfleto a primeira vez, em adição a todas as minhas outras objeções em relação à Eleição, não gostava da idéia de que (num sentido) não tinha nada a haver em ter-me tornado crente. Achava que com a ajuda do Espírito Santo, eu tinha bastante juízo e inteligência para reconhecer uma coisa de valor e tê-la para mim! Nunca parei para pensar que se não tivesse sido eleita, realmente não podia fazer nada para me salvar - nem mesmo aceitá-la. Mas agora, esta é quase a melhor parte dela! Faz-nos humildes, nos tira a respira são, amedronta e emociona, tudo de uma vez. Não consigo afastar-me disto, Dr. Cole. Pensar que todos estes anos (tenho 41 agora) perdi este ensinamento tremendo e a emoção dele! A Eleição fez minha salvação e conversão mais real e pessoal. Sempre invejava as pessoas que falavam com tanta alegria de sua conversão, e sentia que alguma coisa acontecera com eles e comigo não. Não consigo me lembrar de um tempo em que não cri, acho que o senhor entende o que quero dizer. E isto me preocupava Tinha um medo horrível de que talvez tudo para mim não passasse de uma crença de cabeça ou uma crença na crença, por ter sido criada num lar cristão e aceito aquilo, como fazia com os outros padrões de comportamento e pensamento. Orei muito durante meses pedindo ao Senhor que eu fosse salva e que Ele me fizesse notar isto, sem sombra de dúvida, e que me desse "a alegria de Sua salvação" e não mera ortodoxia.

Jamais sonhei em conseguir o "Testemunho do Espírito" através da doutrina da Eleição. Não quero que meu Senhor pense que não sou grata pela salvação. Sou, mas agora mesmo, sinto como se fosse mais grata pela eleição. Será que isto é errado?

Fico dizendo a mim mesma várias vezes, como salva de um navio naufragado, quando os outros morreram: "Por que eu? Porque A Il. Quando acordava de manha, sentia-me cansada e exausta e queria não ter que ir trabalhar (sou viúva, meu marido morreu na guerra); agora, ainda bem não acordo, sinto como se algo novo e encorajador tivesse acontecido e então passa na minha lembrança como um relâmpago..."você é eleita", e isto me faz tão feliz, que acordo por completo na mesma hora, pronta para o novo dia.

Não posso me explicar direito - mas parece que quando a gente acha que teve pelo menos a mínima parte na conversão, isto tira quase toda a emoção e beleza dela. Mas quando o impacto do pensamento e a realização dele atinge você em cheio - que não só a provisão da salvação se deve a graça de Deus, mas também Ele ter escolhido você como recipiente, a única coisa que podemos fazer é nos maravilhar - perdidos em espanto, amor e louvor.

E agora vou lhe falar sobre ontem à noite. Havia mais ou menos 30 mulheres. Nada do que já estudamos em 7 ou 8 anos e que ensinei a esta classe mexeu tanto com elas quanto esta doutrina! Elas trouxeram Bíblias, canetas...e objeções! Revisei tudo com elas com muito cuidado, lembrando que:

(a) A depravação do homem a exigia (eleição) - trabalhando em seu ponto de que nos enganamos a nós mesmos, se acharmos que qualquer um de nós podia querer e procurar Deus em nosso estado não regenerado, à parte do Espírito Santo e da eleição. (Gên. 6:5; Salmo. 14:3; Is. 64:3; Rom. 3:10 e Efés. 2:1 - fiz com que elas procurassem e lessem estas referências em vez alta).

(b) A soberania de Deus a justifica - Ele tem sobre nós os mesmos direitos que o oleiro com o barro, etc., enfatizando tais qualidades de Deus como Sua Justiça absoluta, Santidade, Onisciência, Auto-Existência, etc., o que Lhe dá o direito de agir de maneira soberana.

(c) A Justiça e Santidade de Deus a salvaguardam; não pode ser injustiça de Deus, pois é absolutamente impossível que Ele faça qualquer coisa errada, injusta e infiel... "Ele na pode negar-se a Si mesmo". A despeito de como possa parecia nós, temos o conhecimento e conforto de que o Juiz do mundo inteiro fará justiça.

Bem, depois que apresentei meus pontos, elas fizeram perguntas. Senti muita pena mesmo, de uma senhora em minha classe. Ela está em nossa Igreja agora, mas antes freqüentava Igreja Unida. Acho que ela é salva... Mas periodicamente gente pode ver em seu modo de pensar e em suas observações um retorno à doutrina da salvação da Igreja Unida, que é através das obras! Evidentemente ela está toda confusa sobre este assunto - o que considero um bom sinal. Disse a ela que tinha me sentido muito mais perturbada antes. Ela não pode ver que isto não é injusto por parte de Deus...(Achei sua ilustração de Deus empurrando as pessoas para um lado ou outro excelente). Por isso trabalhei neste ponto. Acho que a maio Iria delas, finalmente começou a ter um raio de luz de que se Deus não tivesse eleito alguns, ninguém seria salvo.

Parece que todos nós temos a mesma reação - se a decisão fosse deixada a nós, teríamos uma chance melhor de sermos salvos, do que Deus tendo estabelecido tudo na eternidade; porque não queremos ou não aceitamos o ensinamento de que por nós mesmos somos incapazes de chegar a Deus. Falei a elas sobre nosso estado natural, estamos mortos em pecados e ofensas, e um defunto não pode nem mesmo piscar um olho. Por isso s6 se enganar, se pensarem por um minuto que algum dia aceitariam Cristo, se Deus não tivesse tomado medidas a este respeito.

Bem, nossa discussão durou quase 1 hora e meia! Esta senhora também achava, como outras também, que as Escrituras se contradiziam sobre Eleição...tais como João. 3:16 e I João. 2:2. Fiquei feliz com sua explicação de "todo" e "mundo" raramente sendo usadas no sentido absoluto.

Também, João. 6:37. .."E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora"...Disse-lhes que olhassem a primeira parte do versículo e elas tiveram um choque! Eu também tive! "Todo que o Pai me dá virá a mim"...etc. É claro que Cristo não vai rejeitar nenhum que vier, porque qualquer que vier será aquele que o Pai deu! Elas ficaram simplesmente atordoadas! Mas reagiram como se o versículo fizesse sentido, e abrisse novos caminhos para o pensamento.

Depois, enquanto esperávamos pelo chá, esta senhora em particular, veio falar comigo. Senti tanta pena dela! Estava encabulada e quase chorando. Então perguntei: "Edite, as coisas estão mais claras agora?" Ela hesitou ao responder: "Em alguns aspectos, sim. Mas há outras coisas que sinto não poder harmonizar com minhas idéias do Deus da Bíblia". Eu disse: Não tente minha amiga. O Dr. Cole disse para não tentar harmonizar todos os pontos deste ensino com outras passagens da Escritura, porque só ia ficar mais confusa, e creio que ele tem razão". (A propósito: Esta foi uma grande ajuda pra mim, pessoalmente; o que o ; senhor me disse sobre ficar com mente confusa. Deixei de lado todos os argumentos, após ler sua carta, disse ao Senhor que achava que já havia lutado bastante, tentando coroar o oceano da teologia d'Ele com a xícara de minha mente, e que não ia mais esquentar a cabeça com os pontos que não entendia. Ele entende e isto basta para mim. E desde então sinto-me em paz).

Tentei falar estas coisas à Edite. Ela disse: "Marjorie, quase fico doida esta semana". Então sua voz falseou: "Não posso pensar noutra coisa, e minha cabeça está fervendo". Senti muita pena dela porque já acontecera o mesmo comigo, até que recebi sua resposta à minha carta.

Então me ocorreu a idéia de que talvez sua carta a ajudas se também. Por isso perguntei-lhe se gostaria de ler uma cópia de minhas perguntas e suas respostas. Ela ficou muito agradecida. Eu as tinha comigo, por isso dei-lhe tudo na mesma hora. Seria muito pedir ao senhor que orasse comigo, para que minha amiga fique em paz e aprenda com a ajuda do Espirito Santo, a amar esta doutrina como nós amamos?

Outra senhora, uma novata em minha classe, apesar de freqüentar a Igreja há vários anos, me disse comum sorriso: "Sou igual à senhora. Sei agora que fui eleita por Deus e isto é simplesmente emocionante. Queria tanto que a senhora falasse com meu marido. Ele teve tanta vontade de vir hoje à noite...até me perguntou se eu achava que a senhora se importava se ele ficasse num dos bancos lá atrás!" Acho que o marido dela leu o panfleto e ficou tão emocionado, que leu tudo de novo, e disse que em toda vida nunca tinha ouvido coisa igual. Porque não ouvimos sobre esta doutrina? E sabe Dr. Cole, várias pessoas já me disseram: "Por que nossos pastores não pregam sobre isto?"

Uma moça, também de outro estado do Sul - Texas - (mas não a que mencionei em minha primeira carta; ela não estava presente ontem à noite) está muito ciente sobre isto, mas admitiu que em ocasiões diferentes o assunto simplesmente perturbou um bocado de suas idéias e compreensão! Contudo, ontem à noite, ao encerrar, ela disse a mim em frente de todo mundo, quase com um suspiro de alivio: "Bem, isto tira com toda certeza o medo da morte, não é?" E sabe, é como o que estou sentindo fortemente agora. Fiquei olhando para ela um minuto - o que ela dissera era um eco do meu próprio coração. As vezes sinto que não posso esperar para ir para o céu, e aprender mais sobre Eleição e o resto da Bíblia.

Uma terceira senhora, mãe de um menino de 6 anos, me disse: "Marjorie, não sei. É maravilhoso demais. Desde seu estudo sinto e penso que tudo sobre Eleição está claro em minha mente agora. Também muitas passagens da Bíblia se encaixam e fazem mais sentido do que antes".

Outra moça que já havia falado comigo várias vezes, disse-me que primeiramente (quando dei minha primeira aula em setembro) ela havia se oposto a isto, mas quanto mais lia o panfleto e pensava nele, mais achava que a doutrina era ensinada realmente na Bíblia, e que por isto estava disposta a crer, deixando o que não entendia para quando chegasse ao céu! Ontem quando terminamos ela cochichou: "Bem, sinto-me feliz hoje também, MarJorie. Mas acho que outras não estão. Mas é mais um caso de 'não quero' com elas".

Contudo, estou orando para que o Espirito Santo faça Seu trabalho no coração das que estão confusas ou resistindo. Sinto-me mais animada porque sei que elas têm interesse, e como o senhor mesmo disse, nenhum de nós gosta desta doutrina; é preciso que o Espirito Santo ensine a pessoa a amá-la.

Prometi-lhe que não ia escrever muito. Já viu? Espero que não se aborreça. Mas sinto-me tão bem falando deste assunto e sou-lhe tão grata, que senti que devia contar-lhe tudo. O senhor tem qualquer outro dos seus ensinos em forma de panfletos? Estava procurando alguns jornais velhos outro dia e vi vários seus, em forma de séries, sobre Pecado, Salvação, etc. Gostaria de ter a coleção completa. Pedi 40 cópias de seu panfleto sobre Eleição, e as distribui em minha classe em setembro, por isso elas têm o que estudar e meditar desde então! Nunca vou poder agradecer-lhe o bastante por seu artigo. Com certeza Deus o guiou a imprimi-lo.

Seria tão bom assistir a este tipo de pregação hoje. Porque nossos ministros não pregam mais sermões sobre doutrina - em vez destas pregações açucaradas, pré-dirigidas e tópicos que tantos dão? Não é de admirar que os crentes de hoje não sejam forte e viris, sabendo de que lado estão - eles nunca deixaram o leite da palavra pela carne que fortalece. Ouvi, uma vez, um pastor batista dizer que hoje somos crentes "lanchonetes" quando devíamos ser crentes "sala-de-jantar". Acho que ele está falando a verdade.

Agora preciso terminar. Mais uma vez obrigada, de coração, por tudo quanto fez por mim. Que Deus o abençoe ricamente e que seu ministério por Ele seja sempre frutífero, além de suas profundas imaginações e esperanças.

Sinceramente, Marjorie Bond

1505 Scotland Street, Calgary, Alberta, Canadá

7 de dezembro de 1959

Caro Dr. Cole:

Depois que mandei-lhe meu cartão de Natal, recebi seus livros: "A Esperança Celestial" e "Doutrinas Divinas". Muitíssimo obrigada. Estou gostando demais do magnifico estudo sobre a doutrina de Deus. Como ela O magnifica, exalta e O restaura à Sua posição certa de Rei dos reis e Senhor dos senhores. Há tempo venho sentindo que as igrejas verdadeiras precisam de uma visão nova da santidade e majestade de Deus, e notar que Ele é "o alto e sublime, que habita na eternidade". (Isaías 57:15). Há inteiramente muito espirito de camaradagem em nossa atitude para com Deus.

Gostaria mais que nossos ministros pregassem doutrina. Parece-me que os membros da igreja ficariam enraizados mais firmemente e cresceriam mais na fé, se tivessem mais ensinos doutrinários e menos pregações "lanchonete"!

A propósito de nosso estudo sobre Eleição, ainda tenho repercussão dele em alguns membros da minha classe. Nada do que já ensinei despertou tanto interesse. Também dei uma cópia de seu panfleto ao nosso ministro. Estou esperando para ver sua reação!

Estava visitando algumas amigas de outra igreja Batista, há poucas semanas atrás, e não sei como surgiu o assunto sobre minha Classe Bíblica e os ensinos sobre eleição. E imagine só...nenhuma pessoa na sala, com exceção dos membros de minha família que estavam presentes, tinha ouvido qualquer coisa sobre Eleição, e muito menos entendido isto! E todos eram ótimos crentes - não só crentes de nome.

Só deu tempo para uma discussão preliminar, quando fomos interrompidas. Mas pude ver que nem tudo foi recebido favoravelmente! (Como o senhor diz, todos nós somos Arminianos por natureza!) Uma senhora e seu pai já velho, os quais se tinham mudado para o Arizona há 2 anos atrás, voltaram para Calgary e estavam presentes essa noite. Há uma semana atrás encontrei-me com esta senhora no correio de uma de nossas lojas. Ela está trabalhando lá temporariamente, e como houvesse muita gente esperando para ser atendida, ela não teve muito tempo para falar comigo. Mas quando ia saindo do guichê, ela disse: "Oh! MarJorie; quero conversar com você sobre aquele assunto que estávamos discutindo na casa de Telma outra noite". Por um minuto ou dois minha mente ficou completamente em branco...não podia me lembrar sobre o que ela estava falando. Ela sorriu e disse: "Lembra? A gente ia começar a discutir o assunto". De repente lembrei-me e disse ansiosamente (este é meu assunto favorito agora). "Oh! sim, é claro. Estarei às suas ordens a hora que quiser". Ela concordou e disse: "Bem, isto me tem feito pensar. Não entendo tudo nem digo que concordo, mas quero aprender mais a este respeito". É outra onda formada pela pedra que o senhor jogou no lago!

Dr. Cole, sei que é muito ocupado, e tenho raiva de aborrece-te com minhas perguntas, mas certo que o senhor entende tão bem este assunto, que é o único em posição de me ajudar. Posso incomodá-lo com uma ou duas mais perguntas?

(a) Qual o significado de "fazer cada vez mais firme a vossa "vocação e eleição?" Primeiramente quando li II Pe. 1:5-10, à luz do meu recém-conhecimento sobre Eleição, pareceu-me que Pedro dizia ser possível alguém perder a salvação. E, ainda porque creio na segurança eterna do crente (ainda mais, desde que entendo Eleição) não pude entender como pode ser isto. Enquanto orava sobre o assunto, pareceu-me que talvez o significado fosse que uma pessoa que faz o que Pedro admoesta é mais um "afastado' do que perdido. O Senhor acha que entendi certo?

(b) "Todos" em Rom. 11:32 é outro exemplo de "todo" sem ser todo no sentido absoluto? Quero dizer a parte que diz: "para com todos usar de misericórdia" Algumas pessoas alguém que esse versículo se opõe à Eleição dizendo que se Deus tivesse misericórdia de todos, Ele não pegaria e escolheria pessoas para a salvação como ensina a doutrina da Eleição.

(c) Também, enquanto estamos ainda em Romanos, é verdade que até os crentes serão julgados por tudo que fizeram desde que foram salvos? Não no sentido de castigo por seus pecados, porque o julgamento do pecado já ocorreu no Calvário. Mas, quando a Bíblia diz: "De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus"; e novamente em Rom. 2:6..."0 qual recompensará cada um segundo as suas obras", e I Cor. 4:5.

Não sei porque, mas o pensamento de ter todos os meus pecados expostos à vista, mesmo que não vá ser punida por eles, tira uma considerável alegria do céu. Eu me desviei horrivelmente há anos atrás, e mesmo sendo o Senhor muito mais querido agora do que antes, sinto às vezes que nada pode desfazer os pecados daqueles anos. Deus sabe tudo sobre eles e me perdoou; por que precisam ser publicados para que o mundo inteiro veja, quando eu chegar ao céu?

Pensei que a passagem em Salmo que diz: "Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões", significava que uma vez salvos, Deus realmente riscava nossos pecados e nunca mais ouviríamos sobre eles. Mas parece haver várias passagens nas epístolas que leva alguém a pensar que, apesar de não sermos castigados por nossos pecados no sentido de ir para o inferno, certamente teremos de dar conta deles. Se for assim, parece-me que nenhum crente vai morrer realmente em paz, sabendo o que o espera adiante. (Por que temos mais medo da opinião do homem do que de Deus?)

(d) Minha última pergunta diz respeito ao que está escrito nas páginas 7-9 do seu panfleto "A Esperança Celestial". Sempre entendi (graças a meu estudo em Eleição) tanto das Escrituras, como de vários hinos e sermões que ouvi, que há perigo em se deixar a salvação para depois; que uma pessoa pode ter sua vida cortada antes de aceitar Cristo e ser lançada na eternidade sem Deus.

Mas de acordo com a doutrina da Eleição, nenhum eleito para a salvação pode morrer sem ser salvo, não é? ("Todo que o Pai me dá virá a mim, e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora"). Portanto, aqueles que Deus pretendeu salvar, serão salvos e não podem se perder, então não há perigo de demora para eles; e os não eleitos não serão salvos também, não é?

Parece-me que tenho tudo arrumado em minha mente, quando leio uma coisa que me faz ficar confusa outra vez!

Como já disse, eu cria também, que houvesse perigo em de morar. Todos os autores de hinos falam sobre isto etc... Mas desde que estudei Eleição, conclui que devia estar errada. Não há urgência real, no sentido de ser um assunto de vida ou morte, porque ninguém pode morrer, antes de ser salvo, se Deus quer que ele seja salvo. Portanto por que os ministros (mesmo os que, como o senhor, crêem em Eleição) urgem as pessoas a se apressarem e aceitarem Cristo, antes que seja muito tarde? Nunca pode ser muito tarde para uma pessoa eleita, pode?

Gostaria muito que pudesse ser esclarecida neste ponto.

Acho que o senhor até receia receber cartas minhas, pois sempre são tão compridas! Mas há tanta coisa para lhe perguntar e os ministros modernos, como médicos, são tão ocupados que não têm mais tempo para a gente.

Muito obrigada por sua ajuda, e que Deus o abençoe ricamente nos anos porvir.

Sinceramente, Marjorie Bond.

746 West Noel, Madisonville, Kentucky

17 de dezembro de 1959

Cara D. Marjorie:

Saudações e votos de uma feliz época natalina!

Quando lhe mandei os livros pelo correio, pretendia escrever uma carta ao mesmo tempo explicando-lhe que não tinha a obrigação de pagar por eles, já que não os havia mandado pedir. Mas outras coisas vieram na frente e eu ainda planejava escrever-lhe, quando sua carta chegou com o pagamento. Talvez eu deva devolver parte do dinheiro, pois é mais do que mandei. O suprimento de livros e folhetos que já escrevi sempre se esgotam. É por isto que só pude mandar o que tinha. As séries sobre o PECADO e SALVAÇÃO ainda não estão em forma de livro. Tenho dois ou três borrões grandes contendo artigos publicados em várias revistas. Na minha idade (estou com 75 anos), acho que não vou publicar mais livros. Contudo tenho amigos mui queridos entre os pastores jovens, e alguns talvez queiram publicar alguns dos meus escritos depois que eu me for.

Com esta breve introdução, vou agora responder às suas perguntas, esperando ser de alguma ajuda.

(a) A exortação de Pedro a "fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição ", é um aviso contra a presunção. Uma pessoa não deve considerar sua salvação verdadeira, sem uma evidência certa dela. É claro que ela quer dizer que devemos ter esta certeza por nós mesmos, pois não precisamos provar nada para Deus. Suas palavras têm a haver com a segurança e não com o fato da salvação. Ele começa com a graça da fé como dom de Deus, e nos urge a edificar sobre esta fé, para que nossa vida não seja estéril nem infrutífera. Nenhum crente infrutífero pode ter certeza da salvação como uma experiência subjetiva. A propósito, sua própria experiência enquanto estava desviada.

(b) Creio que "todos" em Rom. 11:32 é usado só num sentido relativo e não num sentido absoluto, ou então teríamos a salvação universal. Além disso, Rom. 8.18 ensina que Deus é soberano ao conceder misericórdia. Isto não quer dizer que Ele recusa misericórdia a quem confia em Cristo por ela, mas Ele não faz com que todos procurem por Ele pedindo misericórdia alguns são deixados à sua própria vontade carnal.

(c) Os crentes são julgados por suas obras, e não por seus pecados. Os pecados já foram julgados em Cristo e não aparecerão contra ele no dia do Juízo. A salvação é pela graça; o galardão é pelo trabalho. Haverá graus tanto no céu quanto no inferno, pois os salvos e perdidos serão julgados por suas obras - o perdido receberá o grau de castigo proporcional às suas obras más, e o salvo receberá glória de acordo com suas obras. Não espero a recompensa de Paulo, pois minhas obras não se igualam às dele.

Romanos 2 trata de princípios de julgamento sob a lei:

(1) É para ser de acordo com a verdade (Vers. 2), que é de acordo com os fatos;

(2) É para ser de acordo com as obras (Vers. 6);

(3) É para ser sem acepção de pessoas (Vers. 11-12).

O capítulo não está mostrando como ser salvo, mas o que alguém pode esperar da lei, quer seja judeu quer gentio.

Romanos 14 avisa os crentes contra julgarem uns aos outros por vários escrúpulos com respeito ao comer e guardar dias, baseado em que todos compareceremos ao julgamento do trono de Cristo (vers. 10 ). Daremos conta de nós mesmos a Deus e não uns aos outros.

I Cor. 4 trata do julgamento do crente como despenseiro de Deus. Não podemos julgar nem avaliar o trabalho de outro crente aqui nem agora, pois há muito que podemos não saber, como motivos e coisas escondidas; mas quando Cristo vier, Ele saberá tudo sobre nós e "então cada um receberá de Deus o louvor" (I Cor. 4:5). Não somos qualificados para julgar nem para determinar o lugar que outra pessoa terá na glória - Deus vai cuidar disso.

(d) Devemos nos dirigir aos perdidos como pecadores, e não como pecadores eleitos. Não sabemos quem é eleito, até que o manifeste na fé e nas boas obras. Devemos falar com eles sobre 2 necessidade da salvação e fazer com que confiem no único e suficiente Salvador - e confiem nEle agora. Devemos dizer a eles para confiarem em Cristo imediatamente ou esperar até outra oportunidade?

E verdade que "ninguém eleito para a salvação pode possivelmente morrer sem ser salvo". Mas isto não significa que serão salvos sem ser pela fé no Senhor Jesus Cristo. E os meios de salvação são tão eleitos quanto as pessoas. Leia II Tess. 21:13,14.

Paulo sabia mais sobre a doutrina da eleição do que qualquer outro homem, e ainda ele influenciou as pessoas em relação a Jesus. (Atos 28:23). Ele sabia que o eleito seria salvo, e mesmo assim orava e trabalhava pela salvação de Israel (Rom 9:1-3; 10:1-4; 11:14; I Cor. 9:19-22). Não devemos deixar que a doutrina da eleição tire de nós a compaixão pelos perdidos, nem feche nossos olhos à urgência da salvação (Heb. 2:3; II Cor. 6:2).

Haverá coisas que não podemos entender e nem doutrinas que podemos harmonizar, mas é muito claro que Sua ordem para nós é testemunhar a todas as pessoas sobre Cristo Jesus. As coisas secretas pertencem a Deus, mas as coisas reveladas firmam nossa responsabilidade (Deut. 29:29).

Com amor cristão, C. D. Cole.

Fonte: http://www.geocities.com/wbtbrazil/colelect1.htm